quarta-feira, 14 de julho de 2010

Leve Desapego, parte 2

Continuação de Leve Desapego, para saber como é a primeira parte, leia aqui.

A estrada parecia tão longa do interior à capital e sentia cada curva como uma apunhalada pelas costas. Tinha que ir, mas não queria. Do chacoalhar do assento 23, só, pois não havia ninguém ao seu lado, começou a sentir o transe típico das viagens de ônibus. Entrara em sono profundo. Sentiu que lhe tocaram o ombro, despertou lentamente, despertar depois de uma cochilada em um ônibus é como se estivéssemos sendo massacrados mentalmente, nossos olhos parecem pesar toneladas, e nossa boca parece que nunca há visto água em sua vida. A moça gentil de sotaque paulistano lhe dizia que acordasse. Nesse momento não sabia se seus olhos lhe pregavam peças ou era parte do sono que ainda vivia. Era ela, aquela moça que havia visto ao sair da sua cidade, tinha toda a certeza, não podia ser outra, mas não o entendia. Ao que tudo indicava, ela não se lembrava dele, o tratava com o respeito que se trata um estranho ou desconhecido, e simplesmente o acordou porque era o que restava no veículo para que se pudesse encerrar o expediente. Ela trabalhava na empresa. Havia entrado no ônibus sem que notasse? Seria possível que ele, ‘Dipau’, não se lembrasse, não a veria entrar? De repente sua visão enturveceu, seu corpo chacoalhava novamente, sua cabeça batia contra o vidro do ônibus, e ao abrir os olhos via a estrada, turbulenta e lenta, e a paisagem de serra, estava chegando à capital, não seria desta vez que se encontraria com a moça.

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