terça-feira, 6 de abril de 2010

A rua e Eu.

O vento veio forte daquela vez, bateu trazendo poeira e sujeira, cegou-me à segunda rajada. Quando abri os olhos, vermelhos de inflamação, doloridos pelo raspar dos minúsculos grãos, a vi. Vi a rua, deserta, pedindo para que eu dali saísse. Pedia, não, ordenava. Chamava o vento, a chuva, ambos ao mesmo tempo, não me queria alí. Teria que sair, mas estava longe do meu destino. Não havia refúgio daquela vez. A rua foi-se zangando, me mandava fugir, correr pela paralela, pela perpendicular, mas não por ela. Não queria meus passos pesados e molhados pelo seu asfalto. As árvores davam-me apoio, continham a fúria da rua, que possuia o controle dos ventos empoeirados. O carvalho retorceu-se por mim, segurava a terceira rajada, mais violenta que as outras, por que haveria eu de molestar a rua? O que levava em meus bolsos que tanto lhe causava fastio? Estaria em meus bolsos ou em meu corpo? Seria externável ou estava para sempre internalizado? Naquela rua vazia estavam eu e todos os sentimentos do mundo. Ninguém desafiava a rua, a rua aceitava nossa dependência e assim seguiamos nosso rumo. Desta vez desafiaram a rua, e a rua não o permitiria, pachelgas insolente! Não houvesse a rua, não haveria encontro, não houvesse o encontro, não haveria o porquê querer encontrá-la naquele momento. Não haveria o querer. E queria-lhe, naquele instante, naquele momento, e não houvesse a rua, não haveria como, salvo que a rua não o queria. A rua não me queria, não me queria junto a ela, e ela, nada podia fazer contra a rua. E veio a rajada mais forte, nem o carvalho, nem a seringueira puderam evitar, tombaram todos, mas dessa vez não veio a poeira, a rajada me levou direto para dentro de mim, e de lá não poderia sair, ordens da rua.

Abril invernal

Era outono, mas com cara invernal, daqueles invernos que prometem e nunca cumprem, como sempre o é por essas bandas. Nosso calendário climático é variado, depende do gosto do freguês, temos o verão a qualquer mês do ano, exceto Maio, mês mais frio, sempre. Há quem diga que eu divago, que é mentira, o Brasil é grande, e cada um tem a estação que quiser. A minha é assim. Mas nesse mês de Abril senti o pior frio dos últimos tempos. Senti o frio que não passa com o calor do fogo, o calor do meu corpo não me aquece na lã, não há cobertor suficientemente grosso para meu frio. Não há você.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O primeiro despertar

E, de repente, tudo se torna escuro. Aonde se meteram os sons, as vozes, as luzes? Um som estridente vem ao seu encontro, você reconhece aquele sinal, e vai ganhando força, está dentro de você, está fora. São 7:00 da manhã e o despertador não vacila, sempre pontual, você o odeia por exatos 2:34 minutos, o tempo que demora para desligá-lo. Todo dia é a mesma relação, amor e ódio, paixão e desencontro, tocar e desligar. O que lhe prende à cama é a mesma força que prende a cama ao chão. O mesmo peso, sua cabeça não pesava tanto, e só é um dia normal. Aos poucos o peso se dissipa, magicamente, pelo travesseiro, agora são os pés que sentem frio e calor, as mãos pesadas pela falta de sangue, mania sua de mantê-las sob o corpo. Como poderia haver passado tão rápido? Acha que é mentira, afinal, não havia meia hora desde que se deitara. A cara amassada, os olhos lentamente se abrem. Os cílios despregam-se de maneira sistemática, afastam a sujeira para fora do campo de visão, e recebem as primeiras luzes naturais do dia, afinal seu despertador também emite luzes, não bastassem as marteladas sonoras. Levanta-te e anda, já dizia aquele cara, cujo nome me foge à cabeça. Você recolhe todas as forças, normal, inércia, empuxo, tudo o que pode se lembrar, e se levanta, primeiro o tronco, sentado à cama. Olha ao redor, pensa que tem a pior vida que poderia-se desenhar para um ser humano, todo dia o mesmo calvário. O martírio continua, pés nos chinelos, joelhos a estralar, quadril a movimentar-se. São os primeiros passos, tudo dói, você já não tem toda aquela juventude nos ossos, muito menos no corpo. Dirige-se ao banheiro, agora seus orgãos começam a manifestar alertas, todos de uma vez, quem será o primeiro a ser atendido? Sente o escorrer da vida pela privada, apruma-se, olha-se no espelho, procura um sinal de vida. Lava-se, escova-se, penteia-se, olha-se no espelho. Quando havia notado que seus olhos eram verdes? Já não se lembrava mais, já não importava. Na mesa não posta os restos de ontem, o passado e o presente, juntos, a compartilhar esse momento. Alivia-se a fome, já não há tempo a perder. Põe suas vestes laborais e sai apressado, não notou que a luz do quarto ficara acesa. Doze horas se passam. A energia não renovada se gasta. Volta a seu lar. Você nota a luz acesa. Continua acesa, é noite, e você não se importa. Ao deitar você nota o despertador e pensa no amanhã. Aonde se meteram os sons, as vozes, as luzes? E de repente, tudo se torna escuro.

O Início

Como se começa a pensar na vida? Tema profundo, que leva à reflexão, e posteriormente ao suicídio. Sejamos francos, quem pensa demais, vive de menos. Gostaria de refletir aqui minha vida, meus pensamentos ocultos, ocultos até de mais, que não se adequam ao esteriótipo que têm de mim. Veremos no que dá. De conto em conto vou traçando minha biografia, real, por um lado, e fantasiosa, por outro, fazendo o fim soar de meu agrado.