terça-feira, 30 de agosto de 2011

Bento

Bentinho queria pegar o vento, sentia-se intrigado pelo seu poder e pensou que se o tivesse seria o dono do universo. Perguntou, então, à sua mãe como se pega o vento, a mãe disse que o menino estava louco e lhe deu um safanão, vai brincar lá fora . Bentinho, entretanto não desistiu e foi falar com seu pai, o pai disse que o menino era maricas e deu-lhe um canga-leitão, filho meu não pega vento, pega mulher. Ora, bolas, o que havia de errado em querer o vento? Foi à escola e perguntou aos seus colegas se sabiam como pegar o vento, todos se entreolharam e começaram a gargalhar, menino estranho, esse Bento. Cada dia que passava sua empreitada via-se em xeque, só restava-lhe uma alternativa, procurar a fonte. Subiu na mangueira mais alta, lá tinha certeza que sentiria o vento, colocou o cocoruto na copa e viu que seus cabelos esvoaçavam e dançavam ao ritmo frenético da ventania. Fechou os olhos e esperou a próxima rajada, sentiu seu corpo a despegar-se do tronco e quando abriu os olhos, voava, imaginando que dominava os ares, mas não controlava o vento. E foi-se Bento.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Grito!

Ah! Este é meu grito interno exteriorizado em um papel, ou num protótipo deste, já que raros são os que em papel escrevem. Ah! Essa sociedade que evolui em décimos de segundos e espera que o corpo acompanhe o ritmo. Ah! Não consigo tirar minhas vontades terrenas de meu foco de pensamento, corpo, alma, teoriza-se, vive. Tão logo supro minhas necessidades fisiológicas, me fazem saltar ao topo da cadeia e querem que atenda àquelas de alto escalão, que mudariam o mundo. O mundo? Joguei-me neste poço, mas não faço parte desta balbúrdia, esquivar-me-ei até o último suspiro de meus pulmões acinzentados.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O Sorriso Dela

Sua chegada foi triunfal, não havia alma vivente que não a olhasse atentamente. Como um ser iluminado roubou a cena e atraiu mais do que simples holofotes, meu olhar não se cansava de se cruzar com o seu. E tão pronto os olhares se gastaram infinitamente a cada segundo, os lábios invejaram os olhos e se encontraram. E que belo sorriso dela apareceu, aquele sorriso que não mais do que de repente fazia-se meu. Sorria e desfazia-se o céu nublado, por mais chuvosa que fosse a noite, abria-se todo estrelado. Como se cada estrela fora sua, a cada piscar dos olhos cor de mel refletia-se a lua, mas, logo, prontamente, proferiu sua primeira palavra, melhor tivesse terminado em sua risada, mas quis continuar, e ao dizer mais do que três verbos, via-se o mundo inquieto, e da luz que proferia, nem fumaça, como uma vela de sete dias gasta, terminada pelo fogo, diminuiu-se e já não servia. Formoso vaso parnasiano, cheio de curvas e detalhes externos, de cuja essência sente-se falta. Dei-lhe, pois, o ultimato, que deixasse de profanar a língua, para que assim voltasse a luz do dia. Ficou sem entender e foi-se embora. Deixou-me enfim o silêncio, como o das bocas que cala ao passar. Lembro-me que talvez se chamasse Isadora, talvez fosse Isabela, mas me falha a memória, só me recordo do sorriso dela.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Falemos de outra coisa

As mulheres já não me inspiram, seus corpos revoltos, com voltas e curvas, deles não escrevo mais. Decreto o fim do amor, dele pouco se respira. Foi-me dada uma incumbência, desde mim para eu mesmo, e comigo me dispus a completá-la, sem versos de amor, nem amor para rimar. Se se excluem os temas eternos, melhor colocar-me um paletó negro, e por que não um terno? Como em Portugal se diz, visto-me um fato, e de fatos me cubro, reconto fatos e de fato não falo da vida. Veste-se negro e contam-se piadas de papagaio; no velório do amor solto gargalhadas. Engraçado como de fato o é, como com a morte vem a saudade, e se me cansei do amor, logo vem outra vontade.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Poema de Amor

Minha homenagem ao novo livro de português adotado pelo MEC.


Poemas de amor

Qualquer um pode fazer

É só dizer te amo

Ou talvez amo você

Nessa língua pode tudo

Que você vai entender

Já cortei alguns pronomes

Mas quem lê não vai dizer

Gosto muito desta terra

Mas repito-me ao dizer

Poemas de amor

Qualquer tonto vai escrever

É só dizer te amo

Ou talvez amo você.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Os números

Sempre achei que meu número da sorte fosse o vinte e três. E em tudo quanto era jogo, sena, mega-sena, rifa, sempre buscava esse número. Nunca saía. E foi então que resolvi mudar, escolhi o nove. Morava eu no nono andar, todas as camisas de futebol que possuía eram número nove, era o nono na lista de chamada da escola, por que não? Em ponta de faca, cabeça batia. Também não era esse. E fui variando, onze, sete, treze! Nenhum. Dei-me por vencido, talvez não fosse os números a minha vocação. Eis que, sentado um dia, pensando em como ganhar muito dinheiro, sem sair de casa e, de preferência, dormindo, descobri que não dava. Sentei-me a ler e percebi que realmente não eram aqueles números que me fariam melhor, pois não eram os números.

terça-feira, 14 de junho de 2011

O tempo perdido

Em cinco minutos percorri minha vida, e por alguns segundos isolei-me eternamente sob a sombra dos meus pensamentos. Pensei, guardado dentro de meus olhos está tudo o que vivi, mas como reviver aquilo que tão somente pensei? Ao final de cada linha recorro meus escritos e do lado esquerdo da página escapo-me de meus intuitos ao ver como percorre o negro do meu relógio esse ponteiro prata e amarelo, aquele imparável, incansável ponteiro prata e amarelo que marca os segundos, somando-se e deixando para trás o resto de vida que me sobra. Imerso em meus pensamentos o tempo passa soberano, juro que para mim passaram-se anos, tão somente escrevo estas linhas, com letra torta e caneta ao punho, um pouco démodé para os tempos atuais, contudo. Retorno à minha escritura e lembro-me que nunca soube por que escrevia, fosse ganas de esconder-me num centésimo de segundo, fora a saudade que sinto ao não poder alcançar-te com minha voz sequer. Mergulho entre meus pensamentos e te encontro parada, acenando-me com a mão esquerda, ou não, com seu sorriso de ponta a ponta da cara, e me encontro feliz. Dou-te um abraço e te beijo, sinto-me contente e nos eixos. Como um filme com final feliz a cena se apaga, acende-se a luz e a realidade retorna, traz-me a verdade que não pude encarar, não te tenho a meu lado e a saudade não para. Enquanto não te abraço de novo volto-me para dentro de mim e dali você não me escapa. Eternamente comigo, só em presença não mais.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A Caixa

Enquanto tinha as mãos postas na cabeça, viajava interiormente, secando, a cada gota, uma lágrima que lhe ousava molhar a face. Fácil é julgar, entendemos se queremos. Ela não queria entender, afinal, tanto tempo havia se passado, e será que não havia se divertido uma noite sequer? Obvio que sim. Pensava, então, por que sofrer? Sofria porque queria, ninguém mais morria por ela. Em um estalo de sanidade deu um sorriso, era o fim que lhe tocava o peito e, sem medo do que por ventura viesse, deixou-o pra lá, virou-se de costas e abraçou o recomeço; sentaram-se lado a lado e conversaram, traçaram os planos futuros. O que resolveram? Na verdade não sei, mas, depois de alguns dias, lacrou a caixa do acabado, pesada de lágrimas, preparou uma nova caixa, sôfrega como ela só, pôs uma etiqueta azul com dizeres em letra de mão: felicidade.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Fria como você, só.

Hoje acordei pensando em você. E não é que nunca pense, te vejo sempre pairando sobre meus pensamentos mais perdidos e distantes. Mas hoje, mais do que antes, penso em você. Seja, talvez, o dia, a data, aquela que ficávamos juntos, inseparáveis, e vem, então, o ímpeto de te ver, de te ter comigo, sentir-te em minha boca, seja no frio, seja no calor. Sei que quando estou com você estou bem e cada dose de você faz-me sentir melhor. Flutuo sobre os ares, exalo teu cheiro, somos um só. E quando não te vejo caio na tristeza, frustração, só no mundo estou. Mas não hoje! Hoje te terei! E seremos aquele par invencível de outrora, oh, cerveja minha que alegra minhas tristes noites de solidão, de tua frieza nunca reclamarei.