Bom, eu estava participando de um concurso de 'novos tradutores' oferecido pela UFG (Gama Filho-RJ) e, obviamente, não ganhei, nem entrei nos 10 finalistas, porque não sou do Rio, mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é que estou postando minha tradução, como disse anteriormente
nesta postagem, do conto de Cabrera-Infante, cubano,
Darle vueltas a una ceiba.
Guillermo Cabrera Infante DANDO VOLTAS AO REDOR DE UMA CEIBA
Tradução de Felipe Garcia Marçal.
Não, não sei que coisa deu nesta mulher. Está lá dando voltas como um cavalinho de carrossel ao redor dessa árvore sem nem dizer uma palavra, nada mais que dando voltas e mais voltas. Está me deixando cansado. Sempre com sua encenação e suas bobeiras e sua falação. Acreditando em toda essa besteira. Ah, não. Comigo não. Já falei pra ela que ali eu não entro. Olhem para eles: parecem filhos bobos. Não entro nisso. Deixei bem claro hoje de manhã, quando acordou com essa besteira metida na cabeça. Mas a culpa não é dela, é dessazinha aí que há pouco se mudou para a pensão e teve que cair bem no quarto ao lado. Ela passa o dia inteiro metida dentro de casa dizendo minha irmã faz isto, minha irmã faz aquilo, minha irmã aqui, minha irmã acolá. Vou ver se no fim do mês, quando vierem nos cobrar o aluguel, se vai querer que lhe paguemos nós como pagamento dos conselhos que dá para a minha mulher todo santo dia. Esta encheção de agora é coisa dela. Certeza, com certeza. Aposto cem pesos contra uma bituca de cigarro que foi ela quem meteu essa bobagem na cabeça da tonta da minha mulher que acredita em tudo. Olha lá, está me chamando com a mãozinha. Mas pode lhe cair o braço dando tchauzinho que não vou pra lá. Vou ficar aqui sentado onde estou e pronto. Não fosse porque não pode falar já estaria gritando como louca. Vai ter que se conformar com ficar dando tchauzinho a manhã toda ou até que o sol asse essa sua mãozinha e caia carbonizada no chão. Que festeira. Para ela tudo é festa. Hoje de manhã me pregou um susto tremendo porque me acordou com uma cara de doente e torcendo os olhos e engasgando como se tivesse a boca cheia de água e não pudesse falar. Eu estava meio sonolento ainda e o que eu penso: que lhe aconteceu alguma coisa ruim e me levanto de um pulo e começo a sacudí-la pelos ombros. É, me digo, lhe deu. Porque seu pai está internado em Mazorra há mais ou menos dez anos e uma irmã sua se pôs fogo e tem outra irmã que nasceu assim, toda torta e capenga, e eu acho que ela também deu para ficar pinel. Quando ela melhorou vai até a mesa de comer e pega um papelzinho que tem ali todo arrumadinho e me escreve. Toba, diz o recadinho, lembre-se que hoge é o dia. A colônia com k te deseja muitas felisidades. Desculpa que não possa falar com você no dia do teu santo. Coloca a camisa branca, a calça branca e os sapatos de duas cores que vamos ao Templete. Beijinhos Clodo. Bom, então essa fulana colocou na sua cabeça que vamos ao Templete e dar voltas ao redor da ceiba que tem aí. Agora, eu, não há quem me meta numa coisa dessas. Não senhor. Êne, a, ó, til, como dizia o Padrinho. Eu nesse lugar NÃO entro. Olha lá, ela me chamando toda apressadinha como hoje de manhã que bastou sair um raio de sol para me acordar. A colônia com K te deseja muitas felicidades! Que coisas metem na cabeça desta mulher. Bom, vejamos, já que era o dia do meu santo bem que podia me deixar dormir de manhã, que nem no domingo se pode descansar em paz sem que haja uma encheção destas a atrapalhar o nosso dia. Então, o que eu fiz foi tomar o meu pingado bem tranquilo, muito cômodo, com o rádio ligado, ouvindo como o velho Seu Carlos, o Mestre Gardel, mostrando como se toca um tango pela manhã. Depois escutei meu par de boas milongas e fumei dois charutinhos seguidos. Ela vinha que não parava de escrever papelzinhos e mais papelzinhos. Parecia uma agente do censo que havia caído em um bairro cheio de casas. Toba vai logo por favor. E nem assinava mais. Nos últimos eu já estava a ponto de estourar. Por pouquinho não lhe faço falar! Cristóbal pelo amor da sua mãe Tomasa anda logo. Acontece que me deu pena dela, que depois de tudo é uma preta muito boazinha e muito prestativa e peguei e me levantei. Agora, isso sim, me levantei com toda a minha santa calma e me vesti bem (bem devagarzinho) sem pressa. Então desci as escadas com pinta de maioral e acendi outro charutinho na rua e fui até a esquina tomar um cafezinho. Oh, porcaria! É um saco esse negócio de nos domingos não abrirem a cafeteria da Inquisidor e tenha que caminhar até a Muelle de Luz se quiser tomar um bom café. Água de batata foi o que eu tomei. Tive que enxaguar-me a boca com água na frente do moço que vende o café e tudo. Então, devagar e sempre, viemos para o Templete. Pelo caminho Clodo cada vez que se encontrava com um conhecido ou com uma amiga ou com um parente (porque esta mulher tem mais parentes que alguém chamado da Silva) vocês tinham que vê-la, balançando a cabeça, desse jeito, como se fosse uma duquesa russa ou algo assim, sem nunca abrir a boca. Ah, como eu teria aproveitado se tivéssemos feito a viagem de ônibus! Mas ela sabe mais que todo mundo e me levou caminhando pela Rua de San Innasio de modo que não tivesse que encontrar-se com essas amigas da Inquisidor e Lamparilla, que são mais ou menos seis mil pretinhas e todas são costureiras e todas, todinhas usam óculos e sempre estão revistando a todos que passam com seus vinte e quatro mil olhos.Quando chegamos à Praça de Armas aquilo já estava cheio de gente e até a prefeitura estava aberta e a banda municipal por ali com Gonzalo Roy celebrando o dia de São Cristóvão, de modo que tivemos que nos meter no meio da multidão e ir furando fila até a grade do Templete. E até aí chegou meu amor. Neguei-me categoricamente a entrar e então ela começou a arrastar-me por um braço e então por uma manga, até que finalmente ficou fazendo assim com a mão e me afastei dali como um cachorro com o rabo entre as pernas e me perdi detrás do eufônio e da batuta de Gonzalo Roy e do ruído tremendo que estava fazendo a banda enquanto tocavam o hino. Vi-a, depois, quando se pôs em coro ao redor da ceiba com toda essa gente a quem essazinha que mora ao lado deve ter metido na cabeça essa idéia de que se se da voltas ao redor da árvore aproximadamente um milhão de vezes sem falar nem A nem B, nem um suspiro e vai pedindo uma coisa, até que terminem a missa, a árvore ou o Templete ou o padre que então enrubescia com seus sermões ou o tronco da árvore ou Gonzalo Roy ou Deus, te concedem. E assim você pode ver mulheres e alguns homens também, não acredite, que de tudo há no jardim, dando voltas ao redor da árvore, quietinhos mas pedindo, pedindo, pedindo. Aí está ela, Clodo Pérez, minha mulher, tão cabeçuda, ainda dando voltas ao redor do pau. Porque isso já não é uma ceiba nem oito quartos dela de tão seca que está. Porque a árvore mesmo não se faz um milagre e faz crescer folhas de novo? Clodo vai dizer que é porque a ceiba não pode dar voltas ao redor dela mesma, certeza, e pedindo seu milagrezinho. Agora todo mundo já foi para suas casas e os da orquestra juntaram suas coisas e Gonzalo Roy a esta hora deve estar fazendo sua sesta porque passou toda a manhã conduzindo a banda como se estivesse morto de sono, de modo que deve estar sonhando que chega uma mulata deliciosa e lhe diz Rita Baiana meu nome é. E eu cá estou fumando meu charutinho número noventaenove e vendo como minha mulher acredita nessa merda milagrosa. Fumando espero Clodomira Pérez. Ali está me chamando outra vez e me dizendo como um telegrafista, por sinais, que venha eu também ao carrossel da ceiba. Para mim. Fumar é um prazer, sensual, ideal, ritual. Mas pensando bem, vou lá. Não acredito em nada disso, mas vou lá e começarei a dar voltas ao redor da arvorezinha e tudo mais. Ela vai ficar contente e vai acreditar que sou um dos seus. Pobrezinha: ela me vê aqui sozinho sentadinho na sombra, protegido da solama, fumando tranquilamente meu charuto cem. Tenho certeza que ela acha que eu não abri a boca durante toda a santa manhã, que não falei nem um pio. Matá-la-ei de desengano? Vou lá eu também ficar dando minha volta boba ao redor da ceiba.