quarta-feira, 30 de junho de 2010

Leve Desapego

Este mini-conto eu escrevi para um concurso literário que, obviamente, não ganhei.

Pelo caminho ia-se lembrando do que deixava atrás. Passavam árvores, pessoas, ruas, todas com sua história que lhe recordavam os primórdios de sua vida. Via tudo pela janela do assento 23, aquele da janelinha, e sem companhia, pois não haviam comprado o 24. Não sabia o que sentia, deveras, sabia que não voltaria, e nada mais. Ao fazer o contorno da rodoviária viu alguém, uma moça, conhecia-a de algum lugar, de onde seria? Lembrou-se daquele junho de 89, sem recordar o dia, sabia que a tinha visto lá, ainda uma criança, assim como ele, passando pela mesma calçada que hoje avista do alto de um ônibus. Ali foi Zico, Júnior, até mesmo Pelé, às vezes ousava, queria ser Maradona, e aí apanhava. Foi ela quem o apelidou de ‘Dipau’, provavelmente ‘perna-de-pau’ de tão mal que jogava, lembrara-se. Bateu-lhe a nostalgia, e nostalgicamente foi abaixando a vista, não mais voltaria àquela cidade, berço de sua existência, formadora de sua pessoa. O ônibus já havia avançado um bom bocado, Dipau, filho de Jacó Silveira, não pensava mais em quão boa seria sua vida na capital, enquanto isso o ônibus entrava na via de acesso à rodovia estadual, sentiu um estalo em sua cabeça, era o laço que se rompia, sentiu que por fim lhe havia caído uma lágrima.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Contagem Digressiva

Diz-se que a vida é curta, outros preferem dizer que a vida é justa. Nem mais, nem menos do que se merece. Uns vão jovens, mas todos nos vamos algum dia. Quem sabe nos encontramos em outro lugar e continuamos a vida que pensamos levar. Hoje alcanço mais um ano vivido e não encontrei o presente junto à porta. Será um sinal de velhice? Isso porque nem ao menos deixei de morar com meus pais, logo presumo que sou já um solteirão de meia idade sem família e sem vergonha na cara de ainda morar com eles. Dizia minha mãe que a gente envelhece e nem sente, teoricamente ainda estou aprendendo as manhas da vida, ainda que ache já saber demais, não sei de nada. Só sinto que minhas pernas já não são tão ágeis como quando tinha 14 anos e jogava bola das 2 da tarde às 6, com uma pausinha de 15 minutos para tomar água, afinal, aqui faz muito calor. Depois de uma noitada de bola, meu corpo pede gelol, é sinal de velhice? Não fico na balada, como quando tinha 18 anos e saia às 8 da noite e voltava cedo, às 8 da manhã, todos os dias do fim de semana. E isso, será sinal de velhice ou de ajuizamento? Sei que agora tenho mais confiança de que quando tinha 20, 19, 18, a segurança em mim mesmo nunca foi um forte. Hoje tenho menos vergonha de falar e me expressar, sempre com parcimônia, pois me aflige o medo de falar besteira, são noites mal durmidas caso isso ocorra. O processo é natural, é como se houvessem passado nada mais do que 15 minutos, aqueles que passam enquanto você se deixa observar o vazio, preso às suas ideias, que no meu tempo eram idéias. O que se ganha e o que se perde com a idade? Só posso dizer o que vi durante estes 24 anos de existência, completos hoje, e que não é muita coisa, como se quase nada tivesse mudado nesse meio tempo de quase 3 décadas. Se eu sinto saudade de alguma época da minha vida? Sinto falta de momentos específicos, mas sou grato por estar aqui por mais um bocadinho de século.

sábado, 12 de junho de 2010

O Vencedor

Vem que eu te seguro, dizia ele, mas que nada, não me segurou nenhuma vez, sempre que passava a goiabeira me deixava sozinho e lá ia eu, rumo ao chão, não era bem esse o destino que procurava. Como ia aprender a andar de bicicleta desse jeito? Não pode haver uma forma melhor? Por que tenho que cair? E que merda essas rodinhas que não me seguram, pensei que havia algo errado, seria eu? E fui mais uma vez, rumo à glória. Só se fosse a Glória, filha do meu pai que me diziam ser alguma coisa minha, eu não me lembro, irmã, me parece, mas a Glória fazia de tudo para me ver no chão, achava graça. Mamãe era mais legal, ela tinha dois nomes, esses eu aprendi rápido, Diana. Papai era mentiroso, falava que ia me segurar, mas só colocava a mãozona sob o banco da minha bicicleta e falava que estava me segurando, balela! Caí uma três vezes e a chata da Glória lá, que se matava de rir. Eu já não queria mais brincar disso, era chato e meus joelhos estavam todos roxos. Apareceu a Mamãe Diana, nome composto, e disse para a Glória parar de rir e lhe deu uns tapas, achei bom. Dessa vez eu falei para mim mesmo que ia conseguir, nem que fosse para parar em cima da Glória, que mesmo apanhando não parava de rir. E fui. Papai mentiroso já havia soltado o banquinho, as rodinhas já haviam espanado, e eu pedalava, com força e vontade, Mamãe Diana pôs a mão na boca, não acertei a Glória, mas a menina ficou com medo, todo mundo parou para ver, será que eu tinha conseguido? Tamanha foi a minha emoção que me deu um sono e fui acordar lá no sofá. Tinha chegado todo mundo, até a Vó Raimunda que morava lá do outro lado da cidade tinha vindo, virei celebridade, ouvi Mamãe dizer que não tinha sido nada, mas como não foi nada? Havia conseguido andar sozinho, oh gente sem coração! Ouvi Papai dizer que tinha ganhado três pontos, na testa, ora bolas, não sabia que havia pontuação para quem andava bem de bicicleta, e que, além disso, ia me levar para tomar sorvete de flocos, meu preferido, acho que vou me esforçar mais para aprender a andar de bicicleta, dizem que o gato morreu, mas eu nem sei do que estão falando.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Dando voltas ao redor de uma ceiba

Bom, eu estava participando de um concurso de 'novos tradutores' oferecido pela UFG (Gama Filho-RJ) e, obviamente, não ganhei, nem entrei nos 10 finalistas, porque não sou do Rio, mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é que estou postando minha tradução, como disse anteriormente nesta postagem, do conto de Cabrera-Infante, cubano, Darle vueltas a una ceiba.

Guillermo Cabrera Infante

DANDO VOLTAS AO REDOR DE UMA CEIBA

Tradução de Felipe Garcia Marçal.

Não, não sei que coisa deu nesta mulher. Está lá dando voltas como um cavalinho de carrossel ao redor dessa árvore sem nem dizer uma palavra, nada mais que dando voltas e mais voltas. Está me deixando cansado. Sempre com sua encenação e suas bobeiras e sua falação. Acreditando em toda essa besteira. Ah, não. Comigo não. Já falei pra ela que ali eu não entro. Olhem para eles: parecem filhos bobos. Não entro nisso. Deixei bem claro hoje de manhã, quando acordou com essa besteira metida na cabeça. Mas a culpa não é dela, é dessazinha aí que há pouco se mudou para a pensão e teve que cair bem no quarto ao lado. Ela passa o dia inteiro metida dentro de casa dizendo minha irmã faz isto, minha irmã faz aquilo, minha irmã aqui, minha irmã acolá. Vou ver se no fim do mês, quando vierem nos cobrar o aluguel, se vai querer que lhe paguemos nós como pagamento dos conselhos que dá para a minha mulher todo santo dia. Esta encheção de agora é coisa dela. Certeza, com certeza. Aposto cem pesos contra uma bituca de cigarro que foi ela quem meteu essa bobagem na cabeça da tonta da minha mulher que acredita em tudo. Olha lá, está me chamando com a mãozinha. Mas pode lhe cair o braço dando tchauzinho que não vou pra lá. Vou ficar aqui sentado onde estou e pronto. Não fosse porque não pode falar já estaria gritando como louca. Vai ter que se conformar com ficar dando tchauzinho a manhã toda ou até que o sol asse essa sua mãozinha e caia carbonizada no chão. Que festeira. Para ela tudo é festa. Hoje de manhã me pregou um susto tremendo porque me acordou com uma cara de doente e torcendo os olhos e engasgando como se tivesse a boca cheia de água e não pudesse falar. Eu estava meio sonolento ainda e o que eu penso: que lhe aconteceu alguma coisa ruim e me levanto de um pulo e começo a sacudí-la pelos ombros. É, me digo, lhe deu. Porque seu pai está internado em Mazorra há mais ou menos dez anos e uma irmã sua se pôs fogo e tem outra irmã que nasceu assim, toda torta e capenga, e eu acho que ela também deu para ficar pinel. Quando ela melhorou vai até a mesa de comer e pega um papelzinho que tem ali todo arrumadinho e me escreve. Toba, diz o recadinho, lembre-se que hoge é o dia. A colônia com k te deseja muitas felisidades. Desculpa que não possa falar com você no dia do teu santo. Coloca a camisa branca, a calça branca e os sapatos de duas cores que vamos ao Templete. Beijinhos Clodo. Bom, então essa fulana colocou na sua cabeça que vamos ao Templete e dar voltas ao redor da ceiba que tem aí. Agora, eu, não há quem me meta numa coisa dessas. Não senhor. Êne, a, ó, til, como dizia o Padrinho. Eu nesse lugar NÃO entro. Olha lá, ela me chamando toda apressadinha como hoje de manhã que bastou sair um raio de sol para me acordar. A colônia com K te deseja muitas felicidades! Que coisas metem na cabeça desta mulher. Bom, vejamos, já que era o dia do meu santo bem que podia me deixar dormir de manhã, que nem no domingo se pode descansar em paz sem que haja uma encheção destas a atrapalhar o nosso dia. Então, o que eu fiz foi tomar o meu pingado bem tranquilo, muito cômodo, com o rádio ligado, ouvindo como o velho Seu Carlos, o Mestre Gardel, mostrando como se toca um tango pela manhã. Depois escutei meu par de boas milongas e fumei dois charutinhos seguidos. Ela vinha que não parava de escrever papelzinhos e mais papelzinhos. Parecia uma agente do censo que havia caído em um bairro cheio de casas. Toba vai logo por favor. E nem assinava mais. Nos últimos eu já estava a ponto de estourar. Por pouquinho não lhe faço falar! Cristóbal pelo amor da sua mãe Tomasa anda logo. Acontece que me deu pena dela, que depois de tudo é uma preta muito boazinha e muito prestativa e peguei e me levantei. Agora, isso sim, me levantei com toda a minha santa calma e me vesti bem (bem devagarzinho) sem pressa. Então desci as escadas com pinta de maioral e acendi outro charutinho na rua e fui até a esquina tomar um cafezinho. Oh, porcaria! É um saco esse negócio de nos domingos não abrirem a cafeteria da Inquisidor e tenha que caminhar até a Muelle de Luz se quiser tomar um bom café. Água de batata foi o que eu tomei. Tive que enxaguar-me a boca com água na frente do moço que vende o café e tudo. Então, devagar e sempre, viemos para o Templete. Pelo caminho Clodo cada vez que se encontrava com um conhecido ou com uma amiga ou com um parente (porque esta mulher tem mais parentes que alguém chamado da Silva) vocês tinham que vê-la, balançando a cabeça, desse jeito, como se fosse uma duquesa russa ou algo assim, sem nunca abrir a boca. Ah, como eu teria aproveitado se tivéssemos feito a viagem de ônibus! Mas ela sabe mais que todo mundo e me levou caminhando pela Rua de San Innasio de modo que não tivesse que encontrar-se com essas amigas da Inquisidor e Lamparilla, que são mais ou menos seis mil pretinhas e todas são costureiras e todas, todinhas usam óculos e sempre estão revistando a todos que passam com seus vinte e quatro mil olhos.Quando chegamos à Praça de Armas aquilo já estava cheio de gente e até a prefeitura estava aberta e a banda municipal por ali com Gonzalo Roy celebrando o dia de São Cristóvão, de modo que tivemos que nos meter no meio da multidão e ir furando fila até a grade do Templete. E até aí chegou meu amor. Neguei-me categoricamente a entrar e então ela começou a arrastar-me por um braço e então por uma manga, até que finalmente ficou fazendo assim com a mão e me afastei dali como um cachorro com o rabo entre as pernas e me perdi detrás do eufônio e da batuta de Gonzalo Roy e do ruído tremendo que estava fazendo a banda enquanto tocavam o hino. Vi-a, depois, quando se pôs em coro ao redor da ceiba com toda essa gente a quem essazinha que mora ao lado deve ter metido na cabeça essa idéia de que se se da voltas ao redor da árvore aproximadamente um milhão de vezes sem falar nem A nem B, nem um suspiro e vai pedindo uma coisa, até que terminem a missa, a árvore ou o Templete ou o padre que então enrubescia com seus sermões ou o tronco da árvore ou Gonzalo Roy ou Deus, te concedem. E assim você pode ver mulheres e alguns homens também, não acredite, que de tudo há no jardim, dando voltas ao redor da árvore, quietinhos mas pedindo, pedindo, pedindo. Aí está ela, Clodo Pérez, minha mulher, tão cabeçuda, ainda dando voltas ao redor do pau. Porque isso já não é uma ceiba nem oito quartos dela de tão seca que está. Porque a árvore mesmo não se faz um milagre e faz crescer folhas de novo? Clodo vai dizer que é porque a ceiba não pode dar voltas ao redor dela mesma, certeza, e pedindo seu milagrezinho. Agora todo mundo já foi para suas casas e os da orquestra juntaram suas coisas e Gonzalo Roy a esta hora deve estar fazendo sua sesta porque passou toda a manhã conduzindo a banda como se estivesse morto de sono, de modo que deve estar sonhando que chega uma mulata deliciosa e lhe diz Rita Baiana meu nome é. E eu cá estou fumando meu charutinho número noventaenove e vendo como minha mulher acredita nessa merda milagrosa. Fumando espero Clodomira Pérez. Ali está me chamando outra vez e me dizendo como um telegrafista, por sinais, que venha eu também ao carrossel da ceiba. Para mim. Fumar é um prazer, sensual, ideal, ritual. Mas pensando bem, vou lá. Não acredito em nada disso, mas vou lá e começarei a dar voltas ao redor da arvorezinha e tudo mais. Ela vai ficar contente e vai acreditar que sou um dos seus. Pobrezinha: ela me vê aqui sozinho sentadinho na sombra, protegido da solama, fumando tranquilamente meu charuto cem. Tenho certeza que ela acha que eu não abri a boca durante toda a santa manhã, que não falei nem um pio. Matá-la-ei de desengano? Vou lá eu também ficar dando minha volta boba ao redor da ceiba.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Liguei pra dizer que...

- Bom di...
- Oi, me escute, não fale nada, só deixe-me falar...
- Mas, espere...
- Não! Espere você! Sou eu quem vai falar, você já falou demais, já mentiu demais, agora é minha vez. Que eu não sou tudo que você sonhava, pode até ser, mas dizer que alguma vez te fiz sofrer, isso é demais, até pra mim que sou como um gelatina de tão mole! Foram dez anos de minha vida dedicados à sua pessoa e sua revelação repentina acabou com toda uma estrutura psicológica que vinha trabalhando desde quando sofri aquele trauma. Quanto poder depositei numa pessoa só! E você não soube cuidar, muito menos fazer bom uso dele. Não tem vergonha? Não te dá o mínimo de vergonha? Você não sabe a força que faço para te ligar e dizer tudo isso, quantas horas frente ao espelho, quantas lágrimas derramadas, por isso escute bem, eu te amo e só você amei.
- ...
- Agora você pode falar.
- Senhor, não sei com quem você quer falar, mas essa pessoa não sou eu e eu não te amo...
- Ah! Agora vai se fazer de desentendida, Agostina?
- Aqui é do açougue e não me chamo Agostina. No máximo posso dizer que sinto muito.
- Faz assim, então, me vê dois quilos de coração de frango e diz pra Agostina não me esquecer.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Profissão? Tradutor... o quê?

Ao chegar em qualquer lugar, qualquer pessoa, no qual me perguntam minha profissão, já espero a réplica "O quê?". Já tenho tudo preparado, preparo o tom de voz, escondo a cara de frustração e repito pausadamente: Tra-du-tor. Logo então, espero a segunda reação da pessoa, que se ramifica em duas. A primeira é a constatação de que ela não sabe o que se faz um tradutor, e pior, que isso é profissão e, então, manda a pergunta: Mas é tradutor de todas as línguas? E então, eu, com minha cara de vendedor de sapatos digo calmamente, rompendo minh'alma por dentro: Não, só de espanhol e francês. A pessoa, então, finaliza com a última contestação: Mas você não fala inglês? Ah, o senso comum. A segunda constatação é a de total ignorância do assunto e, com vergonha de parecer mesmo ignorante, a pessoa se cala. Há aqueles que confundem tudo e entendem uma profissão que não tem nada a ver. Lavrador? Plantador? Colhedor? AH, Tradutor! Acho que essas pessoas até estão certas. Nossa vida é como uma colheita, uma plantação. Pensemos na vida: Acordamos ao nascer do sol, preparamos o terreno, ligamos nosso trator, aquele Athlon AMD barulhento de 6 anos atrás, nos sentamos na nossa cadeirinha e começamor a lavrar o texto, plantamos sementes nas nossas memórias de tradução, colhemos nossos frutos em tempo record, bem como pede a demanda da lavoura. É uma profissão como todas as outras, alguns estudam para isso, outros não, e a maioria consegue seu lugar ao sol. Quem não estuda sofre mais na terra, assim como os produtores rurais, quem estuda sai em vantagem mas, ao passar dos anos, todos se encontram na mesma situação, talvez um demore mais do que o outro para trocar o trator, mas nada que um financiamento da Caixa não resolva.