segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sonho de domingo

Tenho um cachecol de flores que ilumina o bater de asas das borboletas. Saio do meu quarto, à rua da minha casa, ao desfilar equilibrando-me no meio-fio, vejo um pavimento azul com faixas transversais dando o ritmo ao trânsito de charretes de porcelana. Cruzo todo o quarteirão com os braços estendidos na horizontal, buscando o ponto central que me equilibre na rotação da Terra. Quero correr e se me vão as roupas, encolhem, recolhem o vento, esticam, me ultrapassam, me cobrem. Corro devagar e ando acelerado, grito e não saem sons; vou devagarzinho à beira do mar de areia rosa, sob o por do sol me paro. Volto a caminhar. Acelero o passo ao chegar à esquina feita de tijolos de sabão e me deito sobre a cama de vitórias-régias que se formam no ribeirão à margem da minha cidade, que inventei num sonho e se apaga lentamente ao soar as primeiras notas do sol que ilumina meu travesseiro às primeiras horas da manhã.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A menina que tinha medo das borboletas

Para a menina que nos inundava de brilho, sempre com seu sorriso jovial, aberto e reluzente, de felicidade interminável e carinhos inconsequentes, a alegria cessava por momentos. Terminava seu dia em prantos inacabáveis, fobias incontroláveis, quando ao menos esperar cruzava-lhe o caminho uma borboleta a farfalhar. E seu movimento caótico, que inspirava tormentas na Polinésia, instaurava o choro em seu profundo olhar. Ninguém entendia o porquê de tal desespero, muito menos como havia de temer criatura tão inocente. Fato é que de seu leve voo descordenado soavam palavras ao vento, que aos ouvidos frágeis da menina ocoavam e a sufocavam como um penoso relento. Passaram-se anos até que a menina pudesse controlar-se e ser forte, ao relatar que as borboletas traziam a morte, e quem não as temesse ao fundo da terra iria, ou que, por fim, nela já estaria. E falido intento o de cobrar-lhe explicações, as borboletas farfalhavam e a já moça ouvia o rugido dos trovões; até o dia em que uma das bem abusadas pousou-lhe ao ombro esquerdo, ao olhar se abeirava uma imagem conhecida, da pessoa que por muito tempo nunca deveria ter saido de sua vida. Meteu-se a sorrir como outrora, e a moça voltou a ser a menina que corria lá fora, nada mais que aquele sorriso jovial e luminoso bem mantido em nossa memória.

terça-feira, 24 de maio de 2011

O tempo do homem

Desde o início dos tempos modernos vem o homem com sua vontade de controlar o tempo. Controlaram as colheitas, controlaram o fogo, controlaram o universo ao seu redor, sem nunca, entretanto, poder controlar o tempo. Contos e histórias do passado reviviam a nostalgia dentro de cada um, o homem sonhava em refazer seu caminho, eximir-se da culpa cuja dor não pode aguentar. Um a um foram derrotados, e foi-se passando o tempo e o homem deu-se por vencido na sua luta contra o tempo, o relógio marca o que se perdeu e nada mais, nunca volta atrás. Poucos sabem, contudo, que o homem havia ganhado uma pequena batalha, uma das quais nem imaginaria ganhar. Contra o mal do esquecimento o homem estava curado; dentro de cada ser? Não, pois na sua angústia mercantilista não lhe restava um breve momento para refletir. Havia algo, porém, que lhes impedia de esquecer-se, e nem mesmo os mais brilhantes criadores puderam dar-se conta. O homem tinha um sonho, e para não restar-se no olvido, o escreveu.

Votem em mim!

Depois de escrever o livro, estou participando de um concurso do Clube de Autores.

É só clicar em 5/5 que eu sou grato por toda a eternidade.

http://premio.clubedeautores.com.br/web/site_premio/votar.php?id=44769

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Livro - Do Penúltimo Romântico

Estou lançando meu primeiro livro, baseado nos contos e textos deste blog.
Agradeço ao Clube de Autores, sem o qual não poderia simplesmente 'lançar' nem mesmo promocionar sobre seu lançamento.
Para quem se interessar em ter estes textos um pouquinho mais perto, num momento offline, aqui vai o link.

http://www.clubedeautores.com.br/book/44769--Do_penultimo_romantico

A capa do livro é uma foto que tirei na minha primeira e única ida ao Chile, numa cidadezinha costeira chamada "El Quisco". O interessante sobre a costa chilena é que, mesmo no verão, não me senti em condições adequadas de entrar na fria água do Pacífico. A ideia de verão sem calor não entra na minha cabeça, sendo assim, só estando lá para entender.

domingo, 15 de maio de 2011

Adeus

A água do chuveiro escorre lentamente pelo rosto, se confundem com as lágrimas e escorrem pelo corpo como a dor silenciosa da perda. Havia perdido o sentimento de bem-estar que o acompanhava há tanto tempo, tornara-se parte dele, num momento súbito foi-lhe arrancado do ser, como arranca-se a erva daninha do jardim mal cuidado. Dalí já não brotaria um botão sequer, não fosse a cobertura de cascalho que tapava o vazamento de amor de seu coração. No último abraço, a lembrança esfumaçada dos bons momentos fazia contrapeso na balança que pendia para o abismo da desesperança. No último carinho na face, um beijo que se despedia e encerrava o acordo secreto do querer eterno, para que adiante exista o nós dois. Trancado entre o peito e os pulmões fica o cheio grito que nega a vontade ambígua, das águas do chuveiro, que se misturam às lágrimas de adeus, esvaziado aos prantos.