sábado, 31 de julho de 2010

Dona Rosa

Dona Rosa ouviu falar de uma Dona Flor e não se conformava. Como poderia uma mulher ter dois maridos? Pensava que essa aí teria seu lugar negado no céu. Dona Rosa ia à igreja, mas naquelas que gritam para tirar o demônio do corpo dos possuídos; para ela, Dona Flor teria que ser exorcizada. Dona Rosa acreditava no Pastor e em sua finada mãe, só. Esta lhe falava que uma mulher tinha que ter um homem para cuidar, lavar, passar e cozinhar, não podia ser questionadora e educar bem as crianças. O Pastor falava tudo isso e que, além do mais, tinha que ficar em casa, não poderia trabalhar, homem que é homem põe comida na mesa e sustenta a família. E foi assim que Dona Rosa decidiu não estudar, não questionar. Quando o pai morreu ainda era Rosinha, e teve que trabalhar como empregada doméstica de casa de madame. Não se casou, não teve filhos, não cuidou de nenhum homem seu, em sua cama só se deitariam os anjos, passaram-se os anos e a mocidade se foi, virou Dona, e não era senhora de ninguém. Dona Rosa não se conformava, também, com a história de que mulher solteira deveria sair à procura de marido, pensava que o homem lhe deveria cortejar, assim como nos filmes. Gostava de filmes, menos aquele da Dona Flor que passou na televisão. De tanto os ver, imaginava uma vida muito distante da sua, cuja felicidade se alcança com um carro novo, coisa que nunca teve, nem mesmo um velho. Um dia parou de trabalhar e se olhou no espelho. Já não podia mais com os deveres domésticos alheios, morava de favor na casa da patroa e por consideração, cuidava só da comida. No espelho viu uma senhora, de muitos tantos anos que não conhecia o cheiro do mar, só sabia o que lhe contavam e gostava de lembrar os tempos em que a carochinha ainda era moça. Dona Rosa não conhecia a senhora do espelho, mulher de coração bom que só acreditava na finada mãe e no Pastor da igreja. Naquele dia, terminou de fazer a comida, como de costume, na hora determinada pela patroa, deu uma última olhada na casa, para assegurar-se que tudo estava em seu devido lugar, camas arrumas, sapatos guardados no armário, assim como deve ser, vestiu-se com uma cor discreta, colocou as sandálias e saiu. Não falou aonde ia, tampouco lhe perguntaram, nunca lhe perguntavam nada caso tudo estivesse dentro dos conformes. Foi ao cemitério, ao túmulo de sua mãe, calmamente abaixou-se, já de joelhos olhou para a lápide de sua finada mãe e sussurrou-lhe: Mamãe, você estava errada.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Ano de Copa

O menino nasceu um dia depois da eliminação do Brasil pela França na Copa de 86. Não era lá uma geração muito ganhadora, aquela. Logo em 90, uma derrota triste, para o país que mais tememos perder, Argentina. Em 94, a glória, finalmente um título. Brasileiro que se preze tem que ver, ao menos uma vez, a seleção ser campeã do mundo. Uma sensação que se repetiria em 2002, mas pelo caminho temos a vergonha de 98. As pessoas, para mim, medem sua idade por Copas do Mundo. Quem viu a de 70, para mim, já é muito velho! O que dizer dos títulos anteriores? Meu pai tem 12 nas costas, um ser admirável. Eu só tenho seis. Hei de chegar lá, e, possivelmente, verei títulos que meu pai não verá. Gostaria muito de ter visto a seleção de 82, a derrota mais doída para todos, da melhor seleção dos últimos tempos. Bom, eu já acho que seleção boa é a que ganha, mas quem a viu provavelmente brigará comigo ao ouvir isso, tanto é que a de 70, pra mim, foi a melhor. Tinha Pelé. Acho que o que falta para o futebol de hoje é um Pelé, um jogador completo, um jogador comprometido com o futebol. Vejam bem, eu não ganho nada para correr por um campo durante 60 minutos (futebol amador é uma hora corrido), e mesmo assim jogo com vontade, com amor à camisa. Os bonitões ali ganham uma bolada e nada, suar a camisa? Pra quê? Mas, tudo bem, a gente vai continuar gostando de futebol, e quem não gosta se muda pros EUA, lá nem passam mesmo. Vão assistir beisebol, muito mais interessante, e vejam só, não tem tempo fixo, que esporte sensacional, não é mesmo? Talvez o basquete; para mim, é tão emocionante uma partida de basquete quanto uma partida de vôlei da terceira idade. Cada um com seus gostos, não é mesmo? Aqui sigo eu, com minhas Copas do Mundo, aguardando a cada quatro anos um feriado fora de época, porque no país do futebol é assim, dia de jogo, é dia de jogo, trabalhar, nem pensar! E se terminamos como campeões, bem! Se não, toca o trabalho de novo, ‘bora xingar o jogador que entregou a rapadura, porque agora eu tenho que voltar para a labuta, enquanto ele entra de férias na sua casa de campo em algum lugar do Rio de Janeiro. Ah, além de tudo tem eleição, quem se importa, afinal? O Brasil não levou a Copa.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Leve Desapego, Final

Parte final do conto Leve Desapego. Parte1 - Parte2

A capital tomava forma por detrás dos morros, prédios, casas, ruas, carros... Não havia carros! A rua vazia, o ônibus avançava imponente, sem desafios, sem desafiantes, sem medo. Dirigia-se à rodoviária, vazia. Dipau sentiu um frio na espinha, olhava pela janela desde seu assento 23, não via sequer cães, nem pássaros, nem vendedores ambulantes. Não havia trânsito, não havia tumulto. Começou a recordar o porquê de sua viagem. Na verdade não tinha clara a idéia de mudar de vida, não recordava o que desencadeou sua partida. Sentia, entretanto uma tristeza ímpar em seu peito, algo que lhe fazia perder a respiração. Seus olhos pairavam sobre o nada, admirava o complexo rodoviário, cheio de escadas, cheio de passagens, portas, entradas, saídas. Imaginou quantas pessoas partiam e chegavam, quantas alegrias, quanta melancolia trazia aquele lugar. Levantou-se de sua poltrona, olhou ao redor e não via ninguém. Será que não notara que o ônibus partira levando apenas um passageiro? Não poderia ser tão distraído, talvez houvessem descido enquanto dormia. Dirigiu-se à cabine do motorista e, não o viu. Deu seus primeiros passos na maior cidade do estado, na capital. Por fim, agora conhecia, pouco, mas conhecia-a. Esperava que alguém retirasse suas malas do maleiro, mas não aparecia nenhum funcionário da empresa que o transportara. De repente o sol brilhou mais forte, o vento soprou com gana, pelas frestas da cobertura de zinco focos de luz se direcionavam a um ponto específico do terminal. Não se sabe como, nem de onde, mas ali surgiu a moça, aquela da infância, do sonho, aquela que fazia Dipau esmiuçar os pensamentos para recordar, mas não recordava. Ela estendeu-lhe a mão, e lhe disse docemente: “Vem, Roberto, estão te esperando”. Roberto Dipaula Silveira, filho de Jacó e Marta, 1980 – 2010.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Leve Desapego, parte 2

Continuação de Leve Desapego, para saber como é a primeira parte, leia aqui.

A estrada parecia tão longa do interior à capital e sentia cada curva como uma apunhalada pelas costas. Tinha que ir, mas não queria. Do chacoalhar do assento 23, só, pois não havia ninguém ao seu lado, começou a sentir o transe típico das viagens de ônibus. Entrara em sono profundo. Sentiu que lhe tocaram o ombro, despertou lentamente, despertar depois de uma cochilada em um ônibus é como se estivéssemos sendo massacrados mentalmente, nossos olhos parecem pesar toneladas, e nossa boca parece que nunca há visto água em sua vida. A moça gentil de sotaque paulistano lhe dizia que acordasse. Nesse momento não sabia se seus olhos lhe pregavam peças ou era parte do sono que ainda vivia. Era ela, aquela moça que havia visto ao sair da sua cidade, tinha toda a certeza, não podia ser outra, mas não o entendia. Ao que tudo indicava, ela não se lembrava dele, o tratava com o respeito que se trata um estranho ou desconhecido, e simplesmente o acordou porque era o que restava no veículo para que se pudesse encerrar o expediente. Ela trabalhava na empresa. Havia entrado no ônibus sem que notasse? Seria possível que ele, ‘Dipau’, não se lembrasse, não a veria entrar? De repente sua visão enturveceu, seu corpo chacoalhava novamente, sua cabeça batia contra o vidro do ônibus, e ao abrir os olhos via a estrada, turbulenta e lenta, e a paisagem de serra, estava chegando à capital, não seria desta vez que se encontraria com a moça.