Dona Rosa ouviu falar de uma Dona Flor e não se conformava. Como poderia uma mulher ter dois maridos? Pensava que essa aí teria seu lugar negado no céu. Dona Rosa ia à igreja, mas naquelas que gritam para tirar o demônio do corpo dos possuídos; para ela, Dona Flor teria que ser exorcizada. Dona Rosa acreditava no Pastor e em sua finada mãe, só. Esta lhe falava que uma mulher tinha que ter um homem para cuidar, lavar, passar e cozinhar, não podia ser questionadora e educar bem as crianças. O Pastor falava tudo isso e que, além do mais, tinha que ficar em casa, não poderia trabalhar, homem que é homem põe comida na mesa e sustenta a família. E foi assim que Dona Rosa decidiu não estudar, não questionar. Quando o pai morreu ainda era Rosinha, e teve que trabalhar como empregada doméstica de casa de madame. Não se casou, não teve filhos, não cuidou de nenhum homem seu, em sua cama só se deitariam os anjos, passaram-se os anos e a mocidade se foi, virou Dona, e não era senhora de ninguém. Dona Rosa não se conformava, também, com a história de que mulher solteira deveria sair à procura de marido, pensava que o homem lhe deveria cortejar, assim como nos filmes. Gostava de filmes, menos aquele da Dona Flor que passou na televisão. De tanto os ver, imaginava uma vida muito distante da sua, cuja felicidade se alcança com um carro novo, coisa que nunca teve, nem mesmo um velho. Um dia parou de trabalhar e se olhou no espelho. Já não podia mais com os deveres domésticos alheios, morava de favor na casa da patroa e por consideração, cuidava só da comida. No espelho viu uma senhora, de muitos tantos anos que não conhecia o cheiro do mar, só sabia o que lhe contavam e gostava de lembrar os tempos em que a carochinha ainda era moça. Dona Rosa não conhecia a senhora do espelho, mulher de coração bom que só acreditava na finada mãe e no Pastor da igreja. Naquele dia, terminou de fazer a comida, como de costume, na hora determinada pela patroa, deu uma última olhada na casa, para assegurar-se que tudo estava em seu devido lugar, camas arrumas, sapatos guardados no armário, assim como deve ser, vestiu-se com uma cor discreta, colocou as sandálias e saiu. Não falou aonde ia, tampouco lhe perguntaram, nunca lhe perguntavam nada caso tudo estivesse dentro dos conformes. Foi ao cemitério, ao túmulo de sua mãe, calmamente abaixou-se, já de joelhos olhou para a lápide de sua finada mãe e sussurrou-lhe: Mamãe, você estava errada.
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