Foi-me dando uma vontade, aquela vontade que vem de dentro e não se sabe como nem por que aparece. Foi assim, do nada, como dizem. Deparei-me com as duas opções e as medi como se fossem pesos equivalentes, quando não o eram. Vi-me em uma situação na qual deveria escolher alhos ou bugalhos, deveria escolher o sorvete ou o livro. E, diga-se de passagem, não era qualquer sorvete. Era um gelatto, um sorvete italiano, e não custava qualquer merreca. Do outro lado, imponente, o senhor da sabedoria, o livro. Livro dispensa qualquer comentário e explicação sobre uso e benefícios. Quanto ao gelatto, bem, esse era italiano. E, resguardadas as devidas proporções, cada um tinha o seu preço e, naquele momento, eu só podia possuir um. Difícil decisão essa, a de prescindir de um item tão valioso, seja qual for. Devo dizer, além do mais, que talvez fora a decisão mais injusta a qual me forçaram a tomar. Digo no impessoal, pois eu mesmo me havia submetido àquela prova. O livro, não importava qual fosse, apesar de crer ser um romance francês, em francês, não era nenhum clássico, não era nem conhecido pela minha humilde pessoa, mas era um livro, poço de conhecimento e respaldo de minha profissão. O sorvete, melhor dito, gelatto, era um capricho o qual poderia viver sem, não fosse por aquele momento de insana luxúria e ganância, demonstração insensata de poder sobre o capital. Cedi. Os escritores que me perdoem a insolência, que fique para depois, mas naquele momento, nunca antes na história deste que vos escreve foi experimentado tal sabor em sua boca. Talvez comparado ao primeiro porre, ao primeiro beijo apaixonado, vai-se lá saber. Por sabores nunca dantes navegados submergi, ao encontro de um breve momento de prazer, tão efêmero quanto os 200 miligramas de sorvete contidos naquele cântaro dos deuses, tão infinito quanto a duração de minha doce lembrança.
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