terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Do Mal Irremediável

Após um largo período sem postagens, volto com este conto que ficou entre os 100 melhores do concurso literário de contos curtos da editora "Via Literária" de Porto Seguro-BA


Do mal irremediável

Acho que isso acontece com todo mundo. Acho não, tenho certeza, é natural do ser. Aconteceu com meu pai, com minha avó, com minha tia, acontece. Comigo não podia ser diferente, em algum momento teria que chegar esse dia. E chegou. Sabe, tem gente que fica triste pelos demais, tem gente que disfarça, prefere a discrição, já eu não, trato abertamente. Quando as pessoas perceberem que é natural, vão parar de tratar isso como uma obsessão, um assunto a ser discutido com ressalvas, tem gente que até evita falar disso, e olha que desde que o mundo é mundo isso acontece com as pessoas, vai entender, tem gente que é assim. E, bem, eu estava no trabalho, com sono, e é mais comum desta forma do que se imagina, e veio, veio forte, não tive escolha, padeci. Deste mal não te salvarás, diria o pastor Reinaldo. Pois é, não me salvei e agora estou aqui para contar-lhes. Não bem onde eu queria, mas foi o único lugar que me restou. Tive que sair de mansinho para o chefe não me recriminar, mas ele que venha me falar alguma coisa, mando-lhe para aquele lugar. Eu bem que preferiria um banheirozinho mais confortável, como o da minha casa, mas eu não tive escolha, tinha que ser aqui. E lá vem outra.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Quando acabaram com o futebol

Texto originalmente escrito em 25 de outubro de 2010, publicado somente hoje por motivos de força maior.

Eleições no Brasil são assim, de quatro em quatro anos, todo mundo aparece para falar disto ou daquilo, falam mal, falam bem, não falam nada, votam porque são obrigados, no Brasil é assim. Mas naquele ano eleitoral, houve algo que nunca havia acontecido, ganhou uma mulher. Emoção geral das feministas, revolta daqueles que insistem no machismo. Nada o que fazer, entretanto, votou-se, acabou. Foi eleita. Dirce não tinha lá um nome muito charmoso, costumava dizer que vinha de uma família humilde, mas todo mundo sabia que não era tanto. Faltava-lhes glamour, dinheiro não. Pois bem, em seu primeiro discurso como presidenta, seguindo a febre latino-americana de eleger mulheres e, por fim, assim conseguir mudar o gênero do substantivo, Dirce não parecia nervosa, muito pelo contrário, ressaltava-se seu semblante maduro e bem experimentado para essas ocasiões que se assemelhavam a comícios. A multidão formada por partidários e feministas aplaudia até que foi pronunciada a primeira palavra. Já no meio do discurso que tratava de esclarecer seus primeiros atos como presidenta, o público já demonstrava assombro, até que veio a cartada final:

- ... e, além de tudo isso, vou acabar com o futebol!

Pânico geral na nação! Os meios eletrônicos iam à loucura, notícias em tempo real, a presidenta acabaria com o futebol no país do futebol!

Terminado o primeiro discurso presidencial, milhares de jornalistas, manifestantes, torcedores do Corinthians cercavam a eleita, queriam uma explicação para tal disparate.

De nada serviu a revolta do povo, afinal, no Brasil, o povo nunca tem razão, tanto que elegeram sucessivamente políticos e mais políticos que nada fizeram, de fato, pela nação. No Brasil, “tudo acabaria só em pizza”, porque a partir daquele dia não poderia mais acabar em futebol. Na semana subseqüente iniciou-se o processo de desfutebolização do país, estádios foram fechados, alguns até demolidos, a FIFA tentou argumentar, mas a ordem foi de não ceder, a guarda nacional e o exército tomaram as ruas, era uma verdadeira batalha civil, tudo por causa de um esporte. Os até então atletas que viviam do futebol tornaram-se inválidos e receberiam pensão do governo, três salários mínimos, porque a previdência estava quebrada. Muitos saíram fugidos ao exílio, onde pudesse expressar sua técnica livremente em um país não ditatorial. Os times europeus foram ao delírio e comemoraram a decisão da presidenta, já que podiam adquirir esses novos desempregados de graça. Foi uma crise geral no mercado de ações, o país foi do céu ao inferno em semanas, mas, incrivelmente, a popularidade da presidenta não era afetada, afinal, todos sabem, a maioria da população brasileira é feminina, as mulheres estavam no poder, de quarta-feira não haveria futebol e sim novela, seriam inseridos, na lacuna deixada pelas partidas de domingo, novos programas, voltados ao público feminino, como shows de culinária e cortes de cabelo fantásticos, o Brasil estava de pernas para o ar.

Quem fosse pego na rua praticando o esporte proibido, seria torturado e morto, pois os presídios já estavam superlotados, e o governo anterior não havia previsto essa. Tudo ficou mais calmo ao passar dos anos, claro, brasileiro tem memória curta, e logo deixaram de gostar do dito esporte, salvo aqueles eternos saudosistas, que, assim como contavam histórias de “quando se jogava futebol e podíamos comentar a partida passada”. A presidenta foi re-eleita, mas não recebeu prêmio Nobel e, não foi chamada para participar da ONU e, quando questionada do porquê de tal medida respondeu com firmeza:

- Não gosto de futebol, meu ex-marido era fanático, só assim para ele poder sofrer de verdade, já que a justiça não funciona neste país.


sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Alguma coisa queria lembrar

Fico pensando com meus botões, por que é que a gente nunca esquece que esqueceu e, quando precisa, nunca lembra o que quer lembrar? Eu ia escrever alguma coisa, mas não lembro o que é. Sei que posso passar horas, dias, divagando sobre o esquecido e só aumentar a profundidade do meu esquecimento sobre o assunto inicialmente a ser tratado. Coisa louca, essa nossa cabeça. Tanto viajo por dentro dela que me perco, de tão profunda e abstrata a memória. Outro dia estava relembrando um evento nada importante da minha vida, mas que ficou gravado para sempre. Relembro fatos de quando tinha três, quatro anos, mas, aquilo que estudei sobre o Império Romano ou, então, o significado de psicossomática, não passa nem perto de minha língua. Disseram-me, pois, que é assim mesmo. Mas como pode ser? Que baita vergonha eu passo quando quero lembrar um nome de rua, ou, então, o porquê do acento agudo na palavra oxítona, essas coisas do dia-a-dia, sabem, e não me lembro. Pergunto-me se tudo o que aprendemos, de fato, far-nos-á alguma mudança. Reflitam, para que estudar o sistema circulatório das baratas? Se é que têm um. Tanta serventia tem na minha vida que nem me lembro. Por que não nos lembramos das coisas importantes? Aquilo que vejo todo dia, às vezes esqueço se penteei o cabelo ou se enxagüei o sovaco, mas nunca me esqueço que meu nome é Felipe e meu sobrenome, bom, meu sobrenome eu não me esqueço. Por que quando quero falar algo, me foge à mente aquela palavra chave, essencial ao contexto, e fico assim, mantendo o silêncio insuportável da dúvida e da vexação, claro, me sinto totalmente embaraçado por não saber. A ignorância é uma benção, dizem, para mim é um tormento, que tortura minh’alma. Pois é, não entendo, nem nunca vou entender essa tal de mente, esse famigerado cérebro, nem eu, nem ninguém, por completo, só o tempo. Engraçado, chego ao fim sem nada dizer, mas nunca esqueci uma palavra, que me perseguiu durante cada linha: ceroulas.

domingo, 22 de agosto de 2010

Poema da Gente

Tentei fazer um poema, não muito do meu feitio, mas fiz.

Me pediram para fazer um comentário
contundente
condizente
contudo, não obstante,
no presente.

no subjuntivo
que o presente
que eu faça
que eu comente
que fale sobre a gente.

do povo? pergunto eu:
não, essa gente
que fala sem referente
que trata no inconsciente
essa gente, minha gente.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O Livro e o Gelatto

Foi-me dando uma vontade, aquela vontade que vem de dentro e não se sabe como nem por que aparece. Foi assim, do nada, como dizem. Deparei-me com as duas opções e as medi como se fossem pesos equivalentes, quando não o eram. Vi-me em uma situação na qual deveria escolher alhos ou bugalhos, deveria escolher o sorvete ou o livro. E, diga-se de passagem, não era qualquer sorvete. Era um gelatto, um sorvete italiano, e não custava qualquer merreca. Do outro lado, imponente, o senhor da sabedoria, o livro. Livro dispensa qualquer comentário e explicação sobre uso e benefícios. Quanto ao gelatto, bem, esse era italiano. E, resguardadas as devidas proporções, cada um tinha o seu preço e, naquele momento, eu só podia possuir um. Difícil decisão essa, a de prescindir de um item tão valioso, seja qual for. Devo dizer, além do mais, que talvez fora a decisão mais injusta a qual me forçaram a tomar. Digo no impessoal, pois eu mesmo me havia submetido àquela prova. O livro, não importava qual fosse, apesar de crer ser um romance francês, em francês, não era nenhum clássico, não era nem conhecido pela minha humilde pessoa, mas era um livro, poço de conhecimento e respaldo de minha profissão. O sorvete, melhor dito, gelatto, era um capricho o qual poderia viver sem, não fosse por aquele momento de insana luxúria e ganância, demonstração insensata de poder sobre o capital. Cedi. Os escritores que me perdoem a insolência, que fique para depois, mas naquele momento, nunca antes na história deste que vos escreve foi experimentado tal sabor em sua boca. Talvez comparado ao primeiro porre, ao primeiro beijo apaixonado, vai-se lá saber. Por sabores nunca dantes navegados submergi, ao encontro de um breve momento de prazer, tão efêmero quanto os 200 miligramas de sorvete contidos naquele cântaro dos deuses, tão infinito quanto a duração de minha doce lembrança.

sábado, 31 de julho de 2010

Dona Rosa

Dona Rosa ouviu falar de uma Dona Flor e não se conformava. Como poderia uma mulher ter dois maridos? Pensava que essa aí teria seu lugar negado no céu. Dona Rosa ia à igreja, mas naquelas que gritam para tirar o demônio do corpo dos possuídos; para ela, Dona Flor teria que ser exorcizada. Dona Rosa acreditava no Pastor e em sua finada mãe, só. Esta lhe falava que uma mulher tinha que ter um homem para cuidar, lavar, passar e cozinhar, não podia ser questionadora e educar bem as crianças. O Pastor falava tudo isso e que, além do mais, tinha que ficar em casa, não poderia trabalhar, homem que é homem põe comida na mesa e sustenta a família. E foi assim que Dona Rosa decidiu não estudar, não questionar. Quando o pai morreu ainda era Rosinha, e teve que trabalhar como empregada doméstica de casa de madame. Não se casou, não teve filhos, não cuidou de nenhum homem seu, em sua cama só se deitariam os anjos, passaram-se os anos e a mocidade se foi, virou Dona, e não era senhora de ninguém. Dona Rosa não se conformava, também, com a história de que mulher solteira deveria sair à procura de marido, pensava que o homem lhe deveria cortejar, assim como nos filmes. Gostava de filmes, menos aquele da Dona Flor que passou na televisão. De tanto os ver, imaginava uma vida muito distante da sua, cuja felicidade se alcança com um carro novo, coisa que nunca teve, nem mesmo um velho. Um dia parou de trabalhar e se olhou no espelho. Já não podia mais com os deveres domésticos alheios, morava de favor na casa da patroa e por consideração, cuidava só da comida. No espelho viu uma senhora, de muitos tantos anos que não conhecia o cheiro do mar, só sabia o que lhe contavam e gostava de lembrar os tempos em que a carochinha ainda era moça. Dona Rosa não conhecia a senhora do espelho, mulher de coração bom que só acreditava na finada mãe e no Pastor da igreja. Naquele dia, terminou de fazer a comida, como de costume, na hora determinada pela patroa, deu uma última olhada na casa, para assegurar-se que tudo estava em seu devido lugar, camas arrumas, sapatos guardados no armário, assim como deve ser, vestiu-se com uma cor discreta, colocou as sandálias e saiu. Não falou aonde ia, tampouco lhe perguntaram, nunca lhe perguntavam nada caso tudo estivesse dentro dos conformes. Foi ao cemitério, ao túmulo de sua mãe, calmamente abaixou-se, já de joelhos olhou para a lápide de sua finada mãe e sussurrou-lhe: Mamãe, você estava errada.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Ano de Copa

O menino nasceu um dia depois da eliminação do Brasil pela França na Copa de 86. Não era lá uma geração muito ganhadora, aquela. Logo em 90, uma derrota triste, para o país que mais tememos perder, Argentina. Em 94, a glória, finalmente um título. Brasileiro que se preze tem que ver, ao menos uma vez, a seleção ser campeã do mundo. Uma sensação que se repetiria em 2002, mas pelo caminho temos a vergonha de 98. As pessoas, para mim, medem sua idade por Copas do Mundo. Quem viu a de 70, para mim, já é muito velho! O que dizer dos títulos anteriores? Meu pai tem 12 nas costas, um ser admirável. Eu só tenho seis. Hei de chegar lá, e, possivelmente, verei títulos que meu pai não verá. Gostaria muito de ter visto a seleção de 82, a derrota mais doída para todos, da melhor seleção dos últimos tempos. Bom, eu já acho que seleção boa é a que ganha, mas quem a viu provavelmente brigará comigo ao ouvir isso, tanto é que a de 70, pra mim, foi a melhor. Tinha Pelé. Acho que o que falta para o futebol de hoje é um Pelé, um jogador completo, um jogador comprometido com o futebol. Vejam bem, eu não ganho nada para correr por um campo durante 60 minutos (futebol amador é uma hora corrido), e mesmo assim jogo com vontade, com amor à camisa. Os bonitões ali ganham uma bolada e nada, suar a camisa? Pra quê? Mas, tudo bem, a gente vai continuar gostando de futebol, e quem não gosta se muda pros EUA, lá nem passam mesmo. Vão assistir beisebol, muito mais interessante, e vejam só, não tem tempo fixo, que esporte sensacional, não é mesmo? Talvez o basquete; para mim, é tão emocionante uma partida de basquete quanto uma partida de vôlei da terceira idade. Cada um com seus gostos, não é mesmo? Aqui sigo eu, com minhas Copas do Mundo, aguardando a cada quatro anos um feriado fora de época, porque no país do futebol é assim, dia de jogo, é dia de jogo, trabalhar, nem pensar! E se terminamos como campeões, bem! Se não, toca o trabalho de novo, ‘bora xingar o jogador que entregou a rapadura, porque agora eu tenho que voltar para a labuta, enquanto ele entra de férias na sua casa de campo em algum lugar do Rio de Janeiro. Ah, além de tudo tem eleição, quem se importa, afinal? O Brasil não levou a Copa.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Leve Desapego, Final

Parte final do conto Leve Desapego. Parte1 - Parte2

A capital tomava forma por detrás dos morros, prédios, casas, ruas, carros... Não havia carros! A rua vazia, o ônibus avançava imponente, sem desafios, sem desafiantes, sem medo. Dirigia-se à rodoviária, vazia. Dipau sentiu um frio na espinha, olhava pela janela desde seu assento 23, não via sequer cães, nem pássaros, nem vendedores ambulantes. Não havia trânsito, não havia tumulto. Começou a recordar o porquê de sua viagem. Na verdade não tinha clara a idéia de mudar de vida, não recordava o que desencadeou sua partida. Sentia, entretanto uma tristeza ímpar em seu peito, algo que lhe fazia perder a respiração. Seus olhos pairavam sobre o nada, admirava o complexo rodoviário, cheio de escadas, cheio de passagens, portas, entradas, saídas. Imaginou quantas pessoas partiam e chegavam, quantas alegrias, quanta melancolia trazia aquele lugar. Levantou-se de sua poltrona, olhou ao redor e não via ninguém. Será que não notara que o ônibus partira levando apenas um passageiro? Não poderia ser tão distraído, talvez houvessem descido enquanto dormia. Dirigiu-se à cabine do motorista e, não o viu. Deu seus primeiros passos na maior cidade do estado, na capital. Por fim, agora conhecia, pouco, mas conhecia-a. Esperava que alguém retirasse suas malas do maleiro, mas não aparecia nenhum funcionário da empresa que o transportara. De repente o sol brilhou mais forte, o vento soprou com gana, pelas frestas da cobertura de zinco focos de luz se direcionavam a um ponto específico do terminal. Não se sabe como, nem de onde, mas ali surgiu a moça, aquela da infância, do sonho, aquela que fazia Dipau esmiuçar os pensamentos para recordar, mas não recordava. Ela estendeu-lhe a mão, e lhe disse docemente: “Vem, Roberto, estão te esperando”. Roberto Dipaula Silveira, filho de Jacó e Marta, 1980 – 2010.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Leve Desapego, parte 2

Continuação de Leve Desapego, para saber como é a primeira parte, leia aqui.

A estrada parecia tão longa do interior à capital e sentia cada curva como uma apunhalada pelas costas. Tinha que ir, mas não queria. Do chacoalhar do assento 23, só, pois não havia ninguém ao seu lado, começou a sentir o transe típico das viagens de ônibus. Entrara em sono profundo. Sentiu que lhe tocaram o ombro, despertou lentamente, despertar depois de uma cochilada em um ônibus é como se estivéssemos sendo massacrados mentalmente, nossos olhos parecem pesar toneladas, e nossa boca parece que nunca há visto água em sua vida. A moça gentil de sotaque paulistano lhe dizia que acordasse. Nesse momento não sabia se seus olhos lhe pregavam peças ou era parte do sono que ainda vivia. Era ela, aquela moça que havia visto ao sair da sua cidade, tinha toda a certeza, não podia ser outra, mas não o entendia. Ao que tudo indicava, ela não se lembrava dele, o tratava com o respeito que se trata um estranho ou desconhecido, e simplesmente o acordou porque era o que restava no veículo para que se pudesse encerrar o expediente. Ela trabalhava na empresa. Havia entrado no ônibus sem que notasse? Seria possível que ele, ‘Dipau’, não se lembrasse, não a veria entrar? De repente sua visão enturveceu, seu corpo chacoalhava novamente, sua cabeça batia contra o vidro do ônibus, e ao abrir os olhos via a estrada, turbulenta e lenta, e a paisagem de serra, estava chegando à capital, não seria desta vez que se encontraria com a moça.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Leve Desapego

Este mini-conto eu escrevi para um concurso literário que, obviamente, não ganhei.

Pelo caminho ia-se lembrando do que deixava atrás. Passavam árvores, pessoas, ruas, todas com sua história que lhe recordavam os primórdios de sua vida. Via tudo pela janela do assento 23, aquele da janelinha, e sem companhia, pois não haviam comprado o 24. Não sabia o que sentia, deveras, sabia que não voltaria, e nada mais. Ao fazer o contorno da rodoviária viu alguém, uma moça, conhecia-a de algum lugar, de onde seria? Lembrou-se daquele junho de 89, sem recordar o dia, sabia que a tinha visto lá, ainda uma criança, assim como ele, passando pela mesma calçada que hoje avista do alto de um ônibus. Ali foi Zico, Júnior, até mesmo Pelé, às vezes ousava, queria ser Maradona, e aí apanhava. Foi ela quem o apelidou de ‘Dipau’, provavelmente ‘perna-de-pau’ de tão mal que jogava, lembrara-se. Bateu-lhe a nostalgia, e nostalgicamente foi abaixando a vista, não mais voltaria àquela cidade, berço de sua existência, formadora de sua pessoa. O ônibus já havia avançado um bom bocado, Dipau, filho de Jacó Silveira, não pensava mais em quão boa seria sua vida na capital, enquanto isso o ônibus entrava na via de acesso à rodovia estadual, sentiu um estalo em sua cabeça, era o laço que se rompia, sentiu que por fim lhe havia caído uma lágrima.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Contagem Digressiva

Diz-se que a vida é curta, outros preferem dizer que a vida é justa. Nem mais, nem menos do que se merece. Uns vão jovens, mas todos nos vamos algum dia. Quem sabe nos encontramos em outro lugar e continuamos a vida que pensamos levar. Hoje alcanço mais um ano vivido e não encontrei o presente junto à porta. Será um sinal de velhice? Isso porque nem ao menos deixei de morar com meus pais, logo presumo que sou já um solteirão de meia idade sem família e sem vergonha na cara de ainda morar com eles. Dizia minha mãe que a gente envelhece e nem sente, teoricamente ainda estou aprendendo as manhas da vida, ainda que ache já saber demais, não sei de nada. Só sinto que minhas pernas já não são tão ágeis como quando tinha 14 anos e jogava bola das 2 da tarde às 6, com uma pausinha de 15 minutos para tomar água, afinal, aqui faz muito calor. Depois de uma noitada de bola, meu corpo pede gelol, é sinal de velhice? Não fico na balada, como quando tinha 18 anos e saia às 8 da noite e voltava cedo, às 8 da manhã, todos os dias do fim de semana. E isso, será sinal de velhice ou de ajuizamento? Sei que agora tenho mais confiança de que quando tinha 20, 19, 18, a segurança em mim mesmo nunca foi um forte. Hoje tenho menos vergonha de falar e me expressar, sempre com parcimônia, pois me aflige o medo de falar besteira, são noites mal durmidas caso isso ocorra. O processo é natural, é como se houvessem passado nada mais do que 15 minutos, aqueles que passam enquanto você se deixa observar o vazio, preso às suas ideias, que no meu tempo eram idéias. O que se ganha e o que se perde com a idade? Só posso dizer o que vi durante estes 24 anos de existência, completos hoje, e que não é muita coisa, como se quase nada tivesse mudado nesse meio tempo de quase 3 décadas. Se eu sinto saudade de alguma época da minha vida? Sinto falta de momentos específicos, mas sou grato por estar aqui por mais um bocadinho de século.

sábado, 12 de junho de 2010

O Vencedor

Vem que eu te seguro, dizia ele, mas que nada, não me segurou nenhuma vez, sempre que passava a goiabeira me deixava sozinho e lá ia eu, rumo ao chão, não era bem esse o destino que procurava. Como ia aprender a andar de bicicleta desse jeito? Não pode haver uma forma melhor? Por que tenho que cair? E que merda essas rodinhas que não me seguram, pensei que havia algo errado, seria eu? E fui mais uma vez, rumo à glória. Só se fosse a Glória, filha do meu pai que me diziam ser alguma coisa minha, eu não me lembro, irmã, me parece, mas a Glória fazia de tudo para me ver no chão, achava graça. Mamãe era mais legal, ela tinha dois nomes, esses eu aprendi rápido, Diana. Papai era mentiroso, falava que ia me segurar, mas só colocava a mãozona sob o banco da minha bicicleta e falava que estava me segurando, balela! Caí uma três vezes e a chata da Glória lá, que se matava de rir. Eu já não queria mais brincar disso, era chato e meus joelhos estavam todos roxos. Apareceu a Mamãe Diana, nome composto, e disse para a Glória parar de rir e lhe deu uns tapas, achei bom. Dessa vez eu falei para mim mesmo que ia conseguir, nem que fosse para parar em cima da Glória, que mesmo apanhando não parava de rir. E fui. Papai mentiroso já havia soltado o banquinho, as rodinhas já haviam espanado, e eu pedalava, com força e vontade, Mamãe Diana pôs a mão na boca, não acertei a Glória, mas a menina ficou com medo, todo mundo parou para ver, será que eu tinha conseguido? Tamanha foi a minha emoção que me deu um sono e fui acordar lá no sofá. Tinha chegado todo mundo, até a Vó Raimunda que morava lá do outro lado da cidade tinha vindo, virei celebridade, ouvi Mamãe dizer que não tinha sido nada, mas como não foi nada? Havia conseguido andar sozinho, oh gente sem coração! Ouvi Papai dizer que tinha ganhado três pontos, na testa, ora bolas, não sabia que havia pontuação para quem andava bem de bicicleta, e que, além disso, ia me levar para tomar sorvete de flocos, meu preferido, acho que vou me esforçar mais para aprender a andar de bicicleta, dizem que o gato morreu, mas eu nem sei do que estão falando.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Dando voltas ao redor de uma ceiba

Bom, eu estava participando de um concurso de 'novos tradutores' oferecido pela UFG (Gama Filho-RJ) e, obviamente, não ganhei, nem entrei nos 10 finalistas, porque não sou do Rio, mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é que estou postando minha tradução, como disse anteriormente nesta postagem, do conto de Cabrera-Infante, cubano, Darle vueltas a una ceiba.

Guillermo Cabrera Infante

DANDO VOLTAS AO REDOR DE UMA CEIBA

Tradução de Felipe Garcia Marçal.

Não, não sei que coisa deu nesta mulher. Está lá dando voltas como um cavalinho de carrossel ao redor dessa árvore sem nem dizer uma palavra, nada mais que dando voltas e mais voltas. Está me deixando cansado. Sempre com sua encenação e suas bobeiras e sua falação. Acreditando em toda essa besteira. Ah, não. Comigo não. Já falei pra ela que ali eu não entro. Olhem para eles: parecem filhos bobos. Não entro nisso. Deixei bem claro hoje de manhã, quando acordou com essa besteira metida na cabeça. Mas a culpa não é dela, é dessazinha aí que há pouco se mudou para a pensão e teve que cair bem no quarto ao lado. Ela passa o dia inteiro metida dentro de casa dizendo minha irmã faz isto, minha irmã faz aquilo, minha irmã aqui, minha irmã acolá. Vou ver se no fim do mês, quando vierem nos cobrar o aluguel, se vai querer que lhe paguemos nós como pagamento dos conselhos que dá para a minha mulher todo santo dia. Esta encheção de agora é coisa dela. Certeza, com certeza. Aposto cem pesos contra uma bituca de cigarro que foi ela quem meteu essa bobagem na cabeça da tonta da minha mulher que acredita em tudo. Olha lá, está me chamando com a mãozinha. Mas pode lhe cair o braço dando tchauzinho que não vou pra lá. Vou ficar aqui sentado onde estou e pronto. Não fosse porque não pode falar já estaria gritando como louca. Vai ter que se conformar com ficar dando tchauzinho a manhã toda ou até que o sol asse essa sua mãozinha e caia carbonizada no chão. Que festeira. Para ela tudo é festa. Hoje de manhã me pregou um susto tremendo porque me acordou com uma cara de doente e torcendo os olhos e engasgando como se tivesse a boca cheia de água e não pudesse falar. Eu estava meio sonolento ainda e o que eu penso: que lhe aconteceu alguma coisa ruim e me levanto de um pulo e começo a sacudí-la pelos ombros. É, me digo, lhe deu. Porque seu pai está internado em Mazorra há mais ou menos dez anos e uma irmã sua se pôs fogo e tem outra irmã que nasceu assim, toda torta e capenga, e eu acho que ela também deu para ficar pinel. Quando ela melhorou vai até a mesa de comer e pega um papelzinho que tem ali todo arrumadinho e me escreve. Toba, diz o recadinho, lembre-se que hoge é o dia. A colônia com k te deseja muitas felisidades. Desculpa que não possa falar com você no dia do teu santo. Coloca a camisa branca, a calça branca e os sapatos de duas cores que vamos ao Templete. Beijinhos Clodo. Bom, então essa fulana colocou na sua cabeça que vamos ao Templete e dar voltas ao redor da ceiba que tem aí. Agora, eu, não há quem me meta numa coisa dessas. Não senhor. Êne, a, ó, til, como dizia o Padrinho. Eu nesse lugar NÃO entro. Olha lá, ela me chamando toda apressadinha como hoje de manhã que bastou sair um raio de sol para me acordar. A colônia com K te deseja muitas felicidades! Que coisas metem na cabeça desta mulher. Bom, vejamos, já que era o dia do meu santo bem que podia me deixar dormir de manhã, que nem no domingo se pode descansar em paz sem que haja uma encheção destas a atrapalhar o nosso dia. Então, o que eu fiz foi tomar o meu pingado bem tranquilo, muito cômodo, com o rádio ligado, ouvindo como o velho Seu Carlos, o Mestre Gardel, mostrando como se toca um tango pela manhã. Depois escutei meu par de boas milongas e fumei dois charutinhos seguidos. Ela vinha que não parava de escrever papelzinhos e mais papelzinhos. Parecia uma agente do censo que havia caído em um bairro cheio de casas. Toba vai logo por favor. E nem assinava mais. Nos últimos eu já estava a ponto de estourar. Por pouquinho não lhe faço falar! Cristóbal pelo amor da sua mãe Tomasa anda logo. Acontece que me deu pena dela, que depois de tudo é uma preta muito boazinha e muito prestativa e peguei e me levantei. Agora, isso sim, me levantei com toda a minha santa calma e me vesti bem (bem devagarzinho) sem pressa. Então desci as escadas com pinta de maioral e acendi outro charutinho na rua e fui até a esquina tomar um cafezinho. Oh, porcaria! É um saco esse negócio de nos domingos não abrirem a cafeteria da Inquisidor e tenha que caminhar até a Muelle de Luz se quiser tomar um bom café. Água de batata foi o que eu tomei. Tive que enxaguar-me a boca com água na frente do moço que vende o café e tudo. Então, devagar e sempre, viemos para o Templete. Pelo caminho Clodo cada vez que se encontrava com um conhecido ou com uma amiga ou com um parente (porque esta mulher tem mais parentes que alguém chamado da Silva) vocês tinham que vê-la, balançando a cabeça, desse jeito, como se fosse uma duquesa russa ou algo assim, sem nunca abrir a boca. Ah, como eu teria aproveitado se tivéssemos feito a viagem de ônibus! Mas ela sabe mais que todo mundo e me levou caminhando pela Rua de San Innasio de modo que não tivesse que encontrar-se com essas amigas da Inquisidor e Lamparilla, que são mais ou menos seis mil pretinhas e todas são costureiras e todas, todinhas usam óculos e sempre estão revistando a todos que passam com seus vinte e quatro mil olhos.Quando chegamos à Praça de Armas aquilo já estava cheio de gente e até a prefeitura estava aberta e a banda municipal por ali com Gonzalo Roy celebrando o dia de São Cristóvão, de modo que tivemos que nos meter no meio da multidão e ir furando fila até a grade do Templete. E até aí chegou meu amor. Neguei-me categoricamente a entrar e então ela começou a arrastar-me por um braço e então por uma manga, até que finalmente ficou fazendo assim com a mão e me afastei dali como um cachorro com o rabo entre as pernas e me perdi detrás do eufônio e da batuta de Gonzalo Roy e do ruído tremendo que estava fazendo a banda enquanto tocavam o hino. Vi-a, depois, quando se pôs em coro ao redor da ceiba com toda essa gente a quem essazinha que mora ao lado deve ter metido na cabeça essa idéia de que se se da voltas ao redor da árvore aproximadamente um milhão de vezes sem falar nem A nem B, nem um suspiro e vai pedindo uma coisa, até que terminem a missa, a árvore ou o Templete ou o padre que então enrubescia com seus sermões ou o tronco da árvore ou Gonzalo Roy ou Deus, te concedem. E assim você pode ver mulheres e alguns homens também, não acredite, que de tudo há no jardim, dando voltas ao redor da árvore, quietinhos mas pedindo, pedindo, pedindo. Aí está ela, Clodo Pérez, minha mulher, tão cabeçuda, ainda dando voltas ao redor do pau. Porque isso já não é uma ceiba nem oito quartos dela de tão seca que está. Porque a árvore mesmo não se faz um milagre e faz crescer folhas de novo? Clodo vai dizer que é porque a ceiba não pode dar voltas ao redor dela mesma, certeza, e pedindo seu milagrezinho. Agora todo mundo já foi para suas casas e os da orquestra juntaram suas coisas e Gonzalo Roy a esta hora deve estar fazendo sua sesta porque passou toda a manhã conduzindo a banda como se estivesse morto de sono, de modo que deve estar sonhando que chega uma mulata deliciosa e lhe diz Rita Baiana meu nome é. E eu cá estou fumando meu charutinho número noventaenove e vendo como minha mulher acredita nessa merda milagrosa. Fumando espero Clodomira Pérez. Ali está me chamando outra vez e me dizendo como um telegrafista, por sinais, que venha eu também ao carrossel da ceiba. Para mim. Fumar é um prazer, sensual, ideal, ritual. Mas pensando bem, vou lá. Não acredito em nada disso, mas vou lá e começarei a dar voltas ao redor da arvorezinha e tudo mais. Ela vai ficar contente e vai acreditar que sou um dos seus. Pobrezinha: ela me vê aqui sozinho sentadinho na sombra, protegido da solama, fumando tranquilamente meu charuto cem. Tenho certeza que ela acha que eu não abri a boca durante toda a santa manhã, que não falei nem um pio. Matá-la-ei de desengano? Vou lá eu também ficar dando minha volta boba ao redor da ceiba.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Liguei pra dizer que...

- Bom di...
- Oi, me escute, não fale nada, só deixe-me falar...
- Mas, espere...
- Não! Espere você! Sou eu quem vai falar, você já falou demais, já mentiu demais, agora é minha vez. Que eu não sou tudo que você sonhava, pode até ser, mas dizer que alguma vez te fiz sofrer, isso é demais, até pra mim que sou como um gelatina de tão mole! Foram dez anos de minha vida dedicados à sua pessoa e sua revelação repentina acabou com toda uma estrutura psicológica que vinha trabalhando desde quando sofri aquele trauma. Quanto poder depositei numa pessoa só! E você não soube cuidar, muito menos fazer bom uso dele. Não tem vergonha? Não te dá o mínimo de vergonha? Você não sabe a força que faço para te ligar e dizer tudo isso, quantas horas frente ao espelho, quantas lágrimas derramadas, por isso escute bem, eu te amo e só você amei.
- ...
- Agora você pode falar.
- Senhor, não sei com quem você quer falar, mas essa pessoa não sou eu e eu não te amo...
- Ah! Agora vai se fazer de desentendida, Agostina?
- Aqui é do açougue e não me chamo Agostina. No máximo posso dizer que sinto muito.
- Faz assim, então, me vê dois quilos de coração de frango e diz pra Agostina não me esquecer.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Profissão? Tradutor... o quê?

Ao chegar em qualquer lugar, qualquer pessoa, no qual me perguntam minha profissão, já espero a réplica "O quê?". Já tenho tudo preparado, preparo o tom de voz, escondo a cara de frustração e repito pausadamente: Tra-du-tor. Logo então, espero a segunda reação da pessoa, que se ramifica em duas. A primeira é a constatação de que ela não sabe o que se faz um tradutor, e pior, que isso é profissão e, então, manda a pergunta: Mas é tradutor de todas as línguas? E então, eu, com minha cara de vendedor de sapatos digo calmamente, rompendo minh'alma por dentro: Não, só de espanhol e francês. A pessoa, então, finaliza com a última contestação: Mas você não fala inglês? Ah, o senso comum. A segunda constatação é a de total ignorância do assunto e, com vergonha de parecer mesmo ignorante, a pessoa se cala. Há aqueles que confundem tudo e entendem uma profissão que não tem nada a ver. Lavrador? Plantador? Colhedor? AH, Tradutor! Acho que essas pessoas até estão certas. Nossa vida é como uma colheita, uma plantação. Pensemos na vida: Acordamos ao nascer do sol, preparamos o terreno, ligamos nosso trator, aquele Athlon AMD barulhento de 6 anos atrás, nos sentamos na nossa cadeirinha e começamor a lavrar o texto, plantamos sementes nas nossas memórias de tradução, colhemos nossos frutos em tempo record, bem como pede a demanda da lavoura. É uma profissão como todas as outras, alguns estudam para isso, outros não, e a maioria consegue seu lugar ao sol. Quem não estuda sofre mais na terra, assim como os produtores rurais, quem estuda sai em vantagem mas, ao passar dos anos, todos se encontram na mesma situação, talvez um demore mais do que o outro para trocar o trator, mas nada que um financiamento da Caixa não resolva.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Futuro

Pausa para uma reflexão. Como bem diz e está claramente especificado no blog, sou tradutor, por formação, e perna de pau por vocação. Atendo-me à parte tradutória, fiz uma tradução que ainda não pode ser publicada, mas deixo aqui o texto original para avaliação de quem puder/souber. O conto de Guillermo Cabrera Infante, cubano, Darle vueltas a una ceiba.

http://letras.webz.cz/cubanos/infante/ceiba.htm

DARLE VUELTAS A UNA CEIBA

No no sé qué rayos es lo que le ha dado a esta mujer. Ahí está dando vueltas como caballito de tiovivo en rededor de esa mata sin decir palabra, nada más que dando vueltas y más vueltas. Me tiene más cansado. Siempre está con su artistaje y su bobería y su novelería. Creyendo en toda esa basura. Ah, no. Conmigo sí que no. Ya le dije que ahí no entro yo. Mírenlos cómo están: parecen hijos bobos. Voy a ponerme yo en eso. Se lo dije bien claro esta mañana, cuando se levantó con esa bobera metida en la cabeza.
La culpa no la tiene ella, sino esa tipa que recién se mudó para la accesoria y tuvo que venir a caernos en el cuarto de al lado. Ella se pasa el santo día metida en casa y diciéndole mi hermana haz esto, mi hermana haz lo otro, mi hermana lo de más allá y lo de más acá. Yo voy a ver si a fin de mes, cuando vengan a cobrarle el alquiler, va a querer que se lo paguemos nosotros en pago de los consejos que le da a mi mujer todo el santo día. Esta matraca de ahora es cosa de ella. Seguro, seguro. Voy cien pesos contra un cabo de tabaco que fue ella quien se lo metió en la cabeza a esta zanaca de mi mujer que se lo cree todo.
Ahí me está llamando por seña. Pero se le puede caer el brazo haciendo el pato que yo no voy a ir para allá. Me quedo aquí sentado donde estoy y listo. Si no es porque no puede hablar ya me estaría llamando a grito pelado. Ahora tiene que conformarse con hacer el pato toda la mañana o hasta que el sol le ase la manito esa y se le caiga renegrida al suelo. Tan fiestera. Todo para ella es un brete. Esta mañana me pegó tremendo susto porque me despertó haciendo visajes y poniendo los ojos en blanco y diciendo jucujucu como si tuviera un buche de agua en la boca y no pudiera hablar. Yo estaba medio dormido todavía y qué es lo que me creo: que le ha pasado algo malo y me levanto como un volador de a peso y la empiezo a sacudir por los hombros. Ya, me digo, le dio. Porque ella tiene a su viejo en Mazorra desde hace como diez años y una hermana de ella se dio candela y tiene otra hermana que nació así, toda ñanguetiada y todo eso, y yo me creo que ella también se viró para el lado de los bobos. Cuando ella se pudo zafar va a la mesa de comer y coge un papelito que tiene allí preparadito y todo y me lo enseña. Toba, dice el recadito, acuérdate que oy es el día. Felisidade te decea la colonia con K. Perdona que no te hable el día de tu santo. Pónteme la guayabera blanca, los pantalones blancos y los zapatos de dos tonos que vamos al templete. Te quiere Clodo.ueno, de manera que la fulana esa le metió en la cabeza lo de ir al Templete y darle vueltas a la ceiba que hay allí. Ahora, a mí no hay quien me meta en nada de eso. No señor. De eso nones, con su mala pega y todo, como decía Padrino. Yo ahí NO entro. Ahí está llamándome tan apuradita como esta mañana, que al ser de día ya me estaba despertando. ¡Felicidades te desea la colonia con K! Las cosas que se le meten a esta mujer en la cabeza. Bueno, a ver, ya que era el día de mi santo bien podía dejarme dormir la mañana, que ya ni el domingo se puede descansar en pas sin que venga una salación de éstas a jorobarle a uno el día.
Ahora, que yo lo que hice fue tomarme mi subibaja muy tranquilo, muy cómodo, el radio puesto, oyendo cómo el viejo Don Carlos, el Maestro Gardel, partía un tango en dos por la mañana. Luego me oí mi par de buenas milongas y me fumé dos tabaquitos seguidos. Y ella venga que te venga a escribir papelitos y más papelitos. Parecía una enumeradora del censo que hubiera caído en la cuartería. Toba apúrate por favor. Ya ni los firmaba. En los últimos ya yo estaba a punto de reventar. ¡Por poquito la hago hablar! Cristóbal por los restos de tu madre Tomasa apúrate. Lo que pasa es que me dio pena con ella, que después de todo es una negra muy buenaza y muy hacendosita y cogí y me levanté. Ahora, eso sí, me levanté con toda mi santa calma y me vestí bien (bien despacito) sin apuramiento. Luego bajé las escaleras muy señorón y encendí otro tabaquito en la calle y me llegué a la esquina a tomarme un cafecito de a tres. ¡Saliva de tigre! Es una salación esto de que los domingos no abra el puestecito de Inquisidor y tenga uno que caminar hasta el Muelle de Luz si quiere tomar un buen café. Miao de mono fue lo que tomé. Tuve que enjuagarme la boca con agua delante del tipo que vende el café y todo. Luego, pasito a pasito, vinimos para el Templete.
Por el camino Clodo cada vez que se encontraba con un conocido o con una amiga o con un pariente (porque esta mujer tiene más familia que si se llamara Valdés) había que verla, saludando con la cabeza, así, bajándola, como si fuera una duquesa rusa o algo por el estilo, sin decir nunca ni esta boca es mía. ¡Lo que hubiera gozado yo si hubiéramos tenido que hacer el viaje en guagua! Pero ella sabe más de la cuenta y me llevó caminando por la calle de San Innasio de manera que no se tuviera que encontrar con esas amigas de Inquisidor y Lamparilla, que son como cerca de seis mil negritas y todas son costureras y toditas, toditas usan espejuelos y siempre están cacheando a todo el que pasa con sus veinticuatro mil ojos.
Cuando llegamos a la Plaza de Armas ya estaba aquello lleno de gente y hasta el ayuntamiento estaba abierto y la banda municipal por allí con Gonzalo Roy y todo celebrando el día de San Cristóbal, de manera que nos tuvimos que meter por entre el gentío y colarnos hasta la reja del Templete. Y hasta ahí llegó mi amor.
Me negué redondamente a entrar y entonces ella se puso a halarme por un brazo y luego por una manga, hasta que finalmente se quedó haciendo así con la mano y me alejé de allí como perro con rabo enlatado y me perdí detrás del bombardino y de la batuta de Gonzalo Roy y del ruido tremendo que estaba armando la banda mientras tocaban el inno invasor. La vi, después, cuando se puso en coro alrededor de la ceiba con toda esa otra gente a quien la tipa esa que vive en el cuarto de al lado le debe haber metido en la cabeza esa idea de que si se le da la vuelta a la mata cerca de un millón de veces sin hablar ni media palabra, ni un suspiro y se va pidiendo una cosa, hasta que den la misa, la mata o el Templete o el cura que luego rosía con sus sermones el tronco de la mata o Gonzalo Roy o Dios, te lo conceden. Y así usted puede ver a las mujeres y a algunos hombres también, no crea, que de todo hay en el jardín, dándole la vuelta a la mata, calladitos pero pidiendo, pidiendo, pidiendo.
Ahí está ella, Clodo Pérez, mi mujer, tan cabezona, dándole todavía la vuelta al palo. Porque ya eso no es una ceiba ni ocho cuartos con lo seca que está. ¿Cómo la mata misma no se hace un milagro y se saca hojas de nuevo? Clodo va a decir que es porque la ceiba no puede darse la vuelta ella misma, seguro, y pidiendo su milagrito. Ya todo el mundo se ha ido para su casa y los de la orqueta recogieron y Gonzalo Roy a esta hora debe de estar durmiendo su siesta porque se pasó toda la santa mañana dirigiendo la banda como si estuviera muerto de sueño, de manera que debe de estar soñando que viene una mulata sabrosona y le dice Cecilia Valdés mi nombre es. Y yo estoy aquí fumándome mi tabaquito número noventainueve y mirando cómo mi mujer come esa mierda milagrosa. Fumando espero a Clodomira Pérez. Ahí está llamándome otra ve y diciéndome como el telegrafista del Morro, por señas, que venga yo también al tiovivo de la ceiba. A mí.
Fumar es un placer, sensual, idial, ritual.
Pero pensándolo mejor voy a ir. Yo no creo en nada de eso, pero voy a ir y me voy a poner a darle vuelta a la matica y todo. Ella se va a poner muy contenta y va a creer que estoy en lo suyo. La pobrecita: ella viéndome aquí solo sentadito en la sombra, resguardado de la solana, fumándome tranquilo mi tabaco cien. Seguro que se cree que yo no he abierto la boca en toda la santa mañana, que no he dicho ni esta boca es mía. ¿La mataré de un desengaño? Voy a darle yo también mi vuelta boba a la ceiba.

GUILLERMO CABRERA INFANTE / Gibara.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O que te faz feliz?

O que te faz feliz? Pessoas? Objetos? Conquistas? Tudo? Às vezes a felicidade está relacionada à desgraça alheia, às vezes ao logro alheio. Como mensurar tudo isso? Aquela pessoa amada te fez feliz por quê? Porque te acompanha? Porque te confronta? Porque simplesmente te ama? Aquela TV nova, por que tão feliz te sentes ao vê-la ligada? E o antônimo da felicidade? Pelo menos na gramática dir-se-á ser a tristeza. Será? Para mim são tantos os antônimos da felicidade; não ganhar, não fazer, não amar, não receber, não gostar, não querer, e nem sempre somos tristes por não os ter. Simplesmente não somos felizes. Perder alguém, sem dúvidas, da maneira que for, eterna ou parcialmente, não te faz feliz. Ah, que língua complicada, se não te faz feliz faz-te triste, não é? Antes fosse um problema do idioma, vai mais além, atinge onde todos somos iguais, sem língua, da cultura que for, atinge a alma, dizem que todos a têm.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Teoria da futilidade

Esta noite divaguei; melhor, divagarei. Há muito que não me sentava e divagava, se é que alguma vez havia feito isso, pelo menos com alguém que tivesse o que discordar de mim e derrubar minhas teorias pouco fundamentadas. Hoje até me senti sábio, é fácil ser sábio, sabido, estudado, no mundo, na sociedade de hoje. Fútil sociedade em que vivemos. A moda é ser fútil, um ser pensante não é incluído no meio dominante. Se você quer fazer parte, tem que deixar suas idéias pela metade Oh vida besta! Até esta noite eu queria ser fútil, seguir na mesmice inculta e retardante. Não que eu seja ‘o ser pensante’, mas conscientemente seleciono o meu conteúdo aparente pelo meio em que estou, e assim camuflo o que sou, me adapto, sou aceito. Até antes de me mudar dava graças a deus, com letra minúscula, porque não sou fútil e mais tarde me explico, que ia sair da cidade a qual hoje regresso com toda a felicidade. Tudo isso porque queria futilizar-me, deixar de lado a família, aquilo que marcou minha vida e faz parte do meu ser, meu cartão de visitas, minha formação como indivíduo. Hoje, percebo que sair daqui me ajudou, cresci, mas nunca neste mundo eu deveria ter pensado em me desprender dessa futilidade, dessa cidade. Parece que estou sendo contraditório, mas, resumidamente, para onde fui, não encontrei nada mais que a mesma futilidade presente em toda minha vida, e cá entre nós, para quê me esforçar para entender um mundo novo, que interiormente não passa de um mundo existente e conhecido, um lugar novo, com pensamentos envelhecidos. Sejamos claros, pensando preconceituosamente e servindo-me de estereótipos, saí de uma cidade pequena para outra cidade pequena, um campus com vida social, problemas, pessoas, ou seja, uma cidade com não mais de quatro mil habitantes, uma cidade pequena.

Mas não pense você que quando trato de futilidade, pensamentos minimalistas, ou falta de pensamentos, me refiro à cidade pequena. O mundo é o mesmo, vivemos na mesma época, e se tudo correr como indicam os marcadores, no futuro, e se alguém ler isso pode não entender, será pior. Pior? Me pergunto, usando um português coloquial, se pode piorar. Sim, claro que pode, vamos enumerar: Ainda não se acabou a água, ainda não vivi guerra, ainda não passei fome, ainda não perdi tudo, ainda não perdi meus pais, ainda não sofri nada. Sou a pessoa que mais reclama sem motivos, sou o mais exagerado, sou o que mais precisa de atenção. Ainda bem que reconheço; mas como dizia eu... Do que se trata este texto mesmo? Na verdade não tenho idéia, deve ser mera futilidade. Tudo o que nos faz perder tempo é fútil; descansar é fútil? Não nos faz perder tempo? Que pensamento mais inútil e desinformado. É claro que não, descansar é útil, recuperamos nossas forças para mais uma vez retomar a luta contra a futilidade que talvez possamos chamar de inutilidade. Não, nem tudo que é fútil é inútil, não é verdade? Não sei, realmente este não é o momento no qual queira discutir a semântica das palavras, nem mesmo a diferença de sentidos de uma frase. Espere aí! Já expliquei tudo, e ninguém nem percebeu.

Já tenho certeza que você não agüenta mais tantas frases sem nexo, na verdade eu nem sei o que acontece, não existe um motivo aparente que me faça escrever este texto, aparentemente não, mas existe. Gostaria de falar da sociedade de hoje, da sociedade do ano de 2010, que ousadia a minha, quanta petulância minha achar que este texto sobreviverá através do tempo. Mas como dizia eu, hoje meus olhos foram regados com esperança, e só não digo ‘abertos’ porque sou como um rei em terra de cegos, mas enfim, o que hoje descobri foi que o rumo de nossas vidas, o que seremos um dia, não será mais que uma peça do sistema, e sem grandes divagações e explicações, não mais do que já escrevi por hoje, por mais que pensemos, discutamos, reflitamos, serão horas desperdiçadas, digo, horas de sono, porque poderíamos poupar-nos do óbvio, pois, claro, somos seres pensantes e há muito tempo havíamos descoberto que não fazemos nada sozinhos e que convenções e grupos unidos por um ideal acabam por mudarem seu foco logo após sua primeira conquista significante, e que no final se convertem em reuniões sociais, buscando fundos para uma nova festa, que visa prestígio social e assim por diante. O sucesso corrompe a idéia principal, pois, claro, somos seres humanos, iguais nas idéias, queremos ser amados. Permita-me que eu ria desta minha última frase, não sou nenhum pregador, apenas analiso o que vivo e presencio. E, certamente, não estou retirando-me do meio, sou parte integrante desta sociedade e como tal me incluo e me critico, ciente e consciente.

Por fim, depois de desperdiçar mais algumas horas de sono, pois a vida cotidiana requer que eu me levante cedo, gostaria de expor minha última divagação. Não há nada de mais proveitoso do que sentar e conversar. Como queria que todas as pessoas pudessem se comunicar e dividir suas idéias e conhecimentos. Seria o mundo ideal, onde todos se entenderiam, tudo seria pacífico, monótono e sem ação. Não haveria futilidade e quem assim pensasse, pois compartilharíamos nossas experiências com prazer e dividiríamos o conhecimento sobre o que fizemos e vivemos. É verdade, não haveria o fútil nem o inútil, tudo seria proveitoso e partilhável, tudo seria feliz, não sei como imaginar mais, pois já se distancia e muito da realidade, na qual a felicidade de um depende do sofrimento e desgraça de outro. E disso bem entendemos.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Sentido, sem 3

Gosto de brincar com as palavras, palavrear, prosear, inventar construções, criar caminhos, fazer-te sentir correndo, com sono, com pressa, com dolo. Às vezes ninguém me lê, muitas vezes tu não me lês, todas as vezes. Mas eu sigo, continuo, sem desanimar, porque o faço com gosto, gosto do que faço. Só no meu cérebro eu sei o que penso, tento repassar, me distraio, logo penso em ti, em você, em nós. Se talvez houvesse um assunto que te interesse, ou mesmo que te interessa, porque, quem sou eu para subjetivar? Cansei da dualidade, eu, tu, nós, sempre. Trato de pensar em terceira pessoa, trata de pensar, tenta, não consegue. Sobe-lhe o desejo, por que tudo se trata de amor? Não há amor, há? Cansado, já? Pergunto demais, não é? É porque ninguém tem a resposta, nunca têm. Eles ou ninguém? Já não sei mais de nada. Voltei à primeira pessoa, nem me dei conta. Já sei! É disso que se trata, eu e você, ou tu, como queira(s). Ego. Ah, se soubéssemos latim.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Sentido, sem 2

Ah, como é bom se sentar. Como queria que pudesse me sentar assim tão relaxadamente feliz. E por que não me deixam sentar? Por que vêm ao meu encontro esses mosquitos, pernilongos, insetos demoníacos? Eu só queria me sentar e ver o tempo agir, sem me preocupar comigo, contigo, com ela, com eles, conosco, convosco, me preocupo demais. Sentei-me e não há alma vagante, que pena as penas do universo mundano, ser ou espécie que me faça levantar. Tardei horas para poder sentar-me e quem sois vós que me pede que me levante. Sonhava com minha cadeira de fios, ou então minha poltrona de veludo, inútil no verão, essencial quando se há somente você e o chão. Penso em rimas, penso em comidas, penso no que beber, penso no que usar, penso demais. Sento-me e já não mais sinto. Já não mais sinto minhas pernas a latejar, meus pés a rastejar pelo asfalto, finalmente encontraram afago, descançai. Vêm à mente minha coisas grosseiras, coisas que tinha, coisas que não fazia, hoje faço. Por que hei de mudar? Por que me adapto? Lembro-me de ser impenetrável, irreprimível, irrefreável, irreconhecível. De temível a temeroso muda-se mais que o radical. E cá estou, sentado, e já penso levantar-me. Tanto mudei que nem mais penso no que quero, senão no que querem. Ergo-me e sirvo-lhes de cabeça baixa. Eu só queria sentar-me, por um minuto ou mais, por uma hora ou menos. Nem pude ver o tempo agir, deve ser bom se sentar.

Sentido, sem.

Depois da caida, depressão, you name it, meu mundo particular volta ao seu movimento de rotação, translação, retroação, aliteração, iluminação, são, de preferência, mas não totalmente. Como em uma canção metal avant guard, fui ressaltando aos poucos meus pontos de vista e, bem vagarosamente, fui encontrando o ritmo, já sem um metrônomo. Aprendi a tocar até o piano para lhe apresentar a Mozart, Wagner, não que fosse de seu agrado, mas que lhe é mister conhecer e internalizar seu dó-ré-mi-fá, mesmo tendo oitavadas mais complexas que essas simples notas básicas. Tão básicas, já nos esquecemos do básico. Tudo é tão repleto de complexidade, ensina-se o avançado para depois partirmos ao elementar. E como é efêmero, esse tal de conhecimento. Ou não? Simplesmente se sabe, e nem lembramos mais o porquê, existe porque sim e ponto. Há tanta coisa que desconheço, muito não sei, desconfio, parafraseio e não copio. E me levanto soberano e superior, sem dar-lhes motivos, sem dar-lhes explicações, e no fundo, sem sentido algum, deveras , realmente nenhum.

terça-feira, 6 de abril de 2010

A rua e Eu.

O vento veio forte daquela vez, bateu trazendo poeira e sujeira, cegou-me à segunda rajada. Quando abri os olhos, vermelhos de inflamação, doloridos pelo raspar dos minúsculos grãos, a vi. Vi a rua, deserta, pedindo para que eu dali saísse. Pedia, não, ordenava. Chamava o vento, a chuva, ambos ao mesmo tempo, não me queria alí. Teria que sair, mas estava longe do meu destino. Não havia refúgio daquela vez. A rua foi-se zangando, me mandava fugir, correr pela paralela, pela perpendicular, mas não por ela. Não queria meus passos pesados e molhados pelo seu asfalto. As árvores davam-me apoio, continham a fúria da rua, que possuia o controle dos ventos empoeirados. O carvalho retorceu-se por mim, segurava a terceira rajada, mais violenta que as outras, por que haveria eu de molestar a rua? O que levava em meus bolsos que tanto lhe causava fastio? Estaria em meus bolsos ou em meu corpo? Seria externável ou estava para sempre internalizado? Naquela rua vazia estavam eu e todos os sentimentos do mundo. Ninguém desafiava a rua, a rua aceitava nossa dependência e assim seguiamos nosso rumo. Desta vez desafiaram a rua, e a rua não o permitiria, pachelgas insolente! Não houvesse a rua, não haveria encontro, não houvesse o encontro, não haveria o porquê querer encontrá-la naquele momento. Não haveria o querer. E queria-lhe, naquele instante, naquele momento, e não houvesse a rua, não haveria como, salvo que a rua não o queria. A rua não me queria, não me queria junto a ela, e ela, nada podia fazer contra a rua. E veio a rajada mais forte, nem o carvalho, nem a seringueira puderam evitar, tombaram todos, mas dessa vez não veio a poeira, a rajada me levou direto para dentro de mim, e de lá não poderia sair, ordens da rua.

Abril invernal

Era outono, mas com cara invernal, daqueles invernos que prometem e nunca cumprem, como sempre o é por essas bandas. Nosso calendário climático é variado, depende do gosto do freguês, temos o verão a qualquer mês do ano, exceto Maio, mês mais frio, sempre. Há quem diga que eu divago, que é mentira, o Brasil é grande, e cada um tem a estação que quiser. A minha é assim. Mas nesse mês de Abril senti o pior frio dos últimos tempos. Senti o frio que não passa com o calor do fogo, o calor do meu corpo não me aquece na lã, não há cobertor suficientemente grosso para meu frio. Não há você.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O primeiro despertar

E, de repente, tudo se torna escuro. Aonde se meteram os sons, as vozes, as luzes? Um som estridente vem ao seu encontro, você reconhece aquele sinal, e vai ganhando força, está dentro de você, está fora. São 7:00 da manhã e o despertador não vacila, sempre pontual, você o odeia por exatos 2:34 minutos, o tempo que demora para desligá-lo. Todo dia é a mesma relação, amor e ódio, paixão e desencontro, tocar e desligar. O que lhe prende à cama é a mesma força que prende a cama ao chão. O mesmo peso, sua cabeça não pesava tanto, e só é um dia normal. Aos poucos o peso se dissipa, magicamente, pelo travesseiro, agora são os pés que sentem frio e calor, as mãos pesadas pela falta de sangue, mania sua de mantê-las sob o corpo. Como poderia haver passado tão rápido? Acha que é mentira, afinal, não havia meia hora desde que se deitara. A cara amassada, os olhos lentamente se abrem. Os cílios despregam-se de maneira sistemática, afastam a sujeira para fora do campo de visão, e recebem as primeiras luzes naturais do dia, afinal seu despertador também emite luzes, não bastassem as marteladas sonoras. Levanta-te e anda, já dizia aquele cara, cujo nome me foge à cabeça. Você recolhe todas as forças, normal, inércia, empuxo, tudo o que pode se lembrar, e se levanta, primeiro o tronco, sentado à cama. Olha ao redor, pensa que tem a pior vida que poderia-se desenhar para um ser humano, todo dia o mesmo calvário. O martírio continua, pés nos chinelos, joelhos a estralar, quadril a movimentar-se. São os primeiros passos, tudo dói, você já não tem toda aquela juventude nos ossos, muito menos no corpo. Dirige-se ao banheiro, agora seus orgãos começam a manifestar alertas, todos de uma vez, quem será o primeiro a ser atendido? Sente o escorrer da vida pela privada, apruma-se, olha-se no espelho, procura um sinal de vida. Lava-se, escova-se, penteia-se, olha-se no espelho. Quando havia notado que seus olhos eram verdes? Já não se lembrava mais, já não importava. Na mesa não posta os restos de ontem, o passado e o presente, juntos, a compartilhar esse momento. Alivia-se a fome, já não há tempo a perder. Põe suas vestes laborais e sai apressado, não notou que a luz do quarto ficara acesa. Doze horas se passam. A energia não renovada se gasta. Volta a seu lar. Você nota a luz acesa. Continua acesa, é noite, e você não se importa. Ao deitar você nota o despertador e pensa no amanhã. Aonde se meteram os sons, as vozes, as luzes? E de repente, tudo se torna escuro.

O Início

Como se começa a pensar na vida? Tema profundo, que leva à reflexão, e posteriormente ao suicídio. Sejamos francos, quem pensa demais, vive de menos. Gostaria de refletir aqui minha vida, meus pensamentos ocultos, ocultos até de mais, que não se adequam ao esteriótipo que têm de mim. Veremos no que dá. De conto em conto vou traçando minha biografia, real, por um lado, e fantasiosa, por outro, fazendo o fim soar de meu agrado.