Ah, como é bom se sentar. Como queria que pudesse me sentar assim tão relaxadamente feliz. E por que não me deixam sentar? Por que vêm ao meu encontro esses mosquitos, pernilongos, insetos demoníacos? Eu só queria me sentar e ver o tempo agir, sem me preocupar comigo, contigo, com ela, com eles, conosco, convosco, me preocupo demais. Sentei-me e não há alma vagante, que pena as penas do universo mundano, ser ou espécie que me faça levantar. Tardei horas para poder sentar-me e quem sois vós que me pede que me levante. Sonhava com minha cadeira de fios, ou então minha poltrona de veludo, inútil no verão, essencial quando se há somente você e o chão. Penso em rimas, penso em comidas, penso no que beber, penso no que usar, penso demais. Sento-me e já não mais sinto. Já não mais sinto minhas pernas a latejar, meus pés a rastejar pelo asfalto, finalmente encontraram afago, descançai. Vêm à mente minha coisas grosseiras, coisas que tinha, coisas que não fazia, hoje faço. Por que hei de mudar? Por que me adapto? Lembro-me de ser impenetrável, irreprimível, irrefreável, irreconhecível. De temível a temeroso muda-se mais que o radical. E cá estou, sentado, e já penso levantar-me. Tanto mudei que nem mais penso no que quero, senão no que querem. Ergo-me e sirvo-lhes de cabeça baixa. Eu só queria sentar-me, por um minuto ou mais, por uma hora ou menos. Nem pude ver o tempo agir, deve ser bom se sentar.
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