segunda-feira, 5 de abril de 2010

O primeiro despertar

E, de repente, tudo se torna escuro. Aonde se meteram os sons, as vozes, as luzes? Um som estridente vem ao seu encontro, você reconhece aquele sinal, e vai ganhando força, está dentro de você, está fora. São 7:00 da manhã e o despertador não vacila, sempre pontual, você o odeia por exatos 2:34 minutos, o tempo que demora para desligá-lo. Todo dia é a mesma relação, amor e ódio, paixão e desencontro, tocar e desligar. O que lhe prende à cama é a mesma força que prende a cama ao chão. O mesmo peso, sua cabeça não pesava tanto, e só é um dia normal. Aos poucos o peso se dissipa, magicamente, pelo travesseiro, agora são os pés que sentem frio e calor, as mãos pesadas pela falta de sangue, mania sua de mantê-las sob o corpo. Como poderia haver passado tão rápido? Acha que é mentira, afinal, não havia meia hora desde que se deitara. A cara amassada, os olhos lentamente se abrem. Os cílios despregam-se de maneira sistemática, afastam a sujeira para fora do campo de visão, e recebem as primeiras luzes naturais do dia, afinal seu despertador também emite luzes, não bastassem as marteladas sonoras. Levanta-te e anda, já dizia aquele cara, cujo nome me foge à cabeça. Você recolhe todas as forças, normal, inércia, empuxo, tudo o que pode se lembrar, e se levanta, primeiro o tronco, sentado à cama. Olha ao redor, pensa que tem a pior vida que poderia-se desenhar para um ser humano, todo dia o mesmo calvário. O martírio continua, pés nos chinelos, joelhos a estralar, quadril a movimentar-se. São os primeiros passos, tudo dói, você já não tem toda aquela juventude nos ossos, muito menos no corpo. Dirige-se ao banheiro, agora seus orgãos começam a manifestar alertas, todos de uma vez, quem será o primeiro a ser atendido? Sente o escorrer da vida pela privada, apruma-se, olha-se no espelho, procura um sinal de vida. Lava-se, escova-se, penteia-se, olha-se no espelho. Quando havia notado que seus olhos eram verdes? Já não se lembrava mais, já não importava. Na mesa não posta os restos de ontem, o passado e o presente, juntos, a compartilhar esse momento. Alivia-se a fome, já não há tempo a perder. Põe suas vestes laborais e sai apressado, não notou que a luz do quarto ficara acesa. Doze horas se passam. A energia não renovada se gasta. Volta a seu lar. Você nota a luz acesa. Continua acesa, é noite, e você não se importa. Ao deitar você nota o despertador e pensa no amanhã. Aonde se meteram os sons, as vozes, as luzes? E de repente, tudo se torna escuro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário