O vento veio forte daquela vez, bateu trazendo poeira e sujeira, cegou-me à segunda rajada. Quando abri os olhos, vermelhos de inflamação, doloridos pelo raspar dos minúsculos grãos, a vi. Vi a rua, deserta, pedindo para que eu dali saísse. Pedia, não, ordenava. Chamava o vento, a chuva, ambos ao mesmo tempo, não me queria alí. Teria que sair, mas estava longe do meu destino. Não havia refúgio daquela vez. A rua foi-se zangando, me mandava fugir, correr pela paralela, pela perpendicular, mas não por ela. Não queria meus passos pesados e molhados pelo seu asfalto. As árvores davam-me apoio, continham a fúria da rua, que possuia o controle dos ventos empoeirados. O carvalho retorceu-se por mim, segurava a terceira rajada, mais violenta que as outras, por que haveria eu de molestar a rua? O que levava em meus bolsos que tanto lhe causava fastio? Estaria em meus bolsos ou em meu corpo? Seria externável ou estava para sempre internalizado? Naquela rua vazia estavam eu e todos os sentimentos do mundo. Ninguém desafiava a rua, a rua aceitava nossa dependência e assim seguiamos nosso rumo. Desta vez desafiaram a rua, e a rua não o permitiria, pachelgas insolente! Não houvesse a rua, não haveria encontro, não houvesse o encontro, não haveria o porquê querer encontrá-la naquele momento. Não haveria o querer. E queria-lhe, naquele instante, naquele momento, e não houvesse a rua, não haveria como, salvo que a rua não o queria. A rua não me queria, não me queria junto a ela, e ela, nada podia fazer contra a rua. E veio a rajada mais forte, nem o carvalho, nem a seringueira puderam evitar, tombaram todos, mas dessa vez não veio a poeira, a rajada me levou direto para dentro de mim, e de lá não poderia sair, ordens da rua.
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