Eleições no Brasil são assim, de quatro em quatro anos, todo mundo aparece para falar disto ou daquilo, falam mal, falam bem, não falam nada, votam porque são obrigados, no Brasil é assim. Mas naquele ano eleitoral, houve algo que nunca havia acontecido, ganhou uma mulher. Emoção geral das feministas, revolta daqueles que insistem no machismo. Nada o que fazer, entretanto, votou-se, acabou. Foi eleita. Dirce não tinha lá um nome muito charmoso, costumava dizer que vinha de uma família humilde, mas todo mundo sabia que não era tanto. Faltava-lhes glamour, dinheiro não. Pois bem, em seu primeiro discurso como presidenta, seguindo a febre latino-americana de eleger mulheres e, por fim, assim conseguir mudar o gênero do substantivo, Dirce não parecia nervosa, muito pelo contrário, ressaltava-se seu semblante maduro e bem experimentado para essas ocasiões que se assemelhavam a comícios. A multidão formada por partidários e feministas aplaudia até que foi pronunciada a primeira palavra. Já no meio do discurso que tratava de esclarecer seus primeiros atos como presidenta, o público já demonstrava assombro, até que veio a cartada final:
- ... e, além de tudo isso, vou acabar com o futebol!
Pânico geral na nação! Os meios eletrônicos iam à loucura, notícias em tempo real, a presidenta acabaria com o futebol no país do futebol!
Terminado o primeiro discurso presidencial, milhares de jornalistas, manifestantes, torcedores do Corinthians cercavam a eleita, queriam uma explicação para tal disparate.
De nada serviu a revolta do povo, afinal, no Brasil, o povo nunca tem razão, tanto que elegeram sucessivamente políticos e mais políticos que nada fizeram, de fato, pela nação. No Brasil, “tudo acabaria só em pizza”, porque a partir daquele dia não poderia mais acabar em futebol. Na semana subseqüente iniciou-se o processo de desfutebolização do país, estádios foram fechados, alguns até demolidos, a FIFA tentou argumentar, mas a ordem foi de não ceder, a guarda nacional e o exército tomaram as ruas, era uma verdadeira batalha civil, tudo por causa de um esporte. Os até então atletas que viviam do futebol tornaram-se inválidos e receberiam pensão do governo, três salários mínimos, porque a previdência estava quebrada. Muitos saíram fugidos ao exílio, onde pudesse expressar sua técnica livremente em um país não ditatorial. Os times europeus foram ao delírio e comemoraram a decisão da presidenta, já que podiam adquirir esses novos desempregados de graça. Foi uma crise geral no mercado de ações, o país foi do céu ao inferno em semanas, mas, incrivelmente, a popularidade da presidenta não era afetada, afinal, todos sabem, a maioria da população brasileira é feminina, as mulheres estavam no poder, de quarta-feira não haveria futebol e sim novela, seriam inseridos, na lacuna deixada pelas partidas de domingo, novos programas, voltados ao público feminino, como shows de culinária e cortes de cabelo fantásticos, o Brasil estava de pernas para o ar.
Quem fosse pego na rua praticando o esporte proibido, seria torturado e morto, pois os presídios já estavam superlotados, e o governo anterior não havia previsto essa. Tudo ficou mais calmo ao passar dos anos, claro, brasileiro tem memória curta, e logo deixaram de gostar do dito esporte, salvo aqueles eternos saudosistas, que, assim como contavam histórias de “quando se jogava futebol e podíamos comentar a partida passada”. A presidenta foi re-eleita, mas não recebeu prêmio Nobel e, não foi chamada para participar da ONU e, quando questionada do porquê de tal medida respondeu com firmeza:
- Não gosto de futebol, meu ex-marido era fanático, só assim para ele poder sofrer de verdade, já que a justiça não funciona neste país.
ah sei la, talvez eu não achasse tão ruim já que o autor ia ter mais tempo disponível pra mim ;)
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